Artigo FSP- Desmatamentos criminosos ameaçam mananciais de SP. Ocupação ilegal avança e põe mata atlântica em risco.

Nos últimos anos, o desmatamento e a ocupação imobiliária irregular em áreas protegidas da mata atlântica aumentaram significativamente em São Paulo. Um novo ciclo de desmate ganhou fôlego com a ação de grupos criminosos, que invadem áreas verdes, derrubam árvores e implantam loteamentos clandestinos.

De acordo com um levantamento preparado pelo vereador Gilberto Natalini (PV), nos últimos cinco anos 90 novas áreas de mata atlântica foram desmatadas nos extremos leste e sul de São Paulo, com a derrubada de ao menos 500 mil árvores. Essas áreas passaram a abrigar bairros populares, erguidos da noite para o dia, sem planejamento urbano e sem sistema de coleta de esgoto adequado. São loteamentos que custam entre R$ 35 mil e R$ 150 mil.

A cidade não pode continuar perdendo suas áreas remanescentes de mata atlântica, principalmente em Parelheiros, na zona sul, onde a cobertura vegetal é imprescindível para manter os mananciais que abastecem a represa de Guarapiranga, crucial para o fornecimento de água à população da região metropolitana. Essas matas ainda contribuem para manter as temperaturas mais baixas e para reduzir a poluição.

O cenário hoje é ainda mais grave: cientistas do mundo inteiro concluíram que estamos sofrendo os efeitos do aquecimento global de forma nunca antes vista e, para combatê-lo, entre outras medidas, é urgente preservar as árvores existentes e plantar mais. Muito mais.

Nós, vereadores eleitos pela capital paulista, nos reunimos na Rede de Ação Política pela Sustentabilidade (Raps), da qual somos membros junto a mais de 570 lideranças políticas de 28 partidos, para chamar a atenção da população e dos órgãos competentes para esse problema urgente e propor soluções conjuntas. Queremos reverter esse quadro e fazer de São Paulo uma das grandes cidades do mundo comprometidas com a sustentabilidade.

É possível fazê-lo. Juntos, Prefeitura de São Paulo e governo do estado já enfrentaram, com êxito, situação grave de supressão de florestas naturais no município, implementando os programas “Defesa das Águas” e “Córrego Limpo”, num amplo esforço de diversos órgãos públicos.

Obtivemos bons resultados bloqueando novas invasões em áreas de manancial, proporcionando reurbanizações e transferindo moradores de áreas de risco. No entanto, lotes ilegais, sem registros ou documentações, são oferecidos a famílias humildes, que empregam suas economias para fugir do aluguel em troca de um teto longe de escolas, hospitais e outros serviços básicos, vivendo em situações vulneráveis.

A situação atinge a zona sul, onde se localiza Parelheiros —região da cidade com o pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), onde quase 40% da população não têm acesso a saneamento básico, índice que pode aumentar com as ocupações irregulares—, e também as zonas leste, oeste e norte.

Se nada for feito, em pouco tempo quase não restarão remanescentes significativos de mata atlântica.

Uma solução efetiva para o problema só virá na medida em que suas causas sejam enfrentadas para além da necessária e urgente fiscalização e o simples cumprimento da legislação. Temos de garantir as condições para viabilizar unidades de habitação de interesse social nas áreas dotadas de infraestrutura.

Ao mesmo tempo, é preciso criar condições para que áreas de preservação ambiental se viabilizem economicamente, com a remuneração por serviços ambientais e com a criação de áreas de lazer para a interação das crianças com a natureza.

Essa atuação em várias frentes, a partir de uma visão global do desafio, pode contribuir para que haja menos interesse no desmatamento em conluio com loteamentos clandestinos, evitando que mais comunidades vivam em situações de vulnerabilidade —hoje são 80 mil crianças nessas condições.

Estamos perdendo a luta pela preservação das nossas matas. Precisamos agir para encontrar e punir os verdadeiros culpados por esse atentado à natureza, tão valiosa para a qualidade de vida dos paulistanos desta e das próximas gerações.

Caio Miranda, Gilberto Natalini, Janaína Lima, Patrícia Bezerra e Police Neto
Vereadores de São Paulo que fazem parte da Rede de Ação Política pela Sustentabilidade (Raps)

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Artigo Folha de São Paulo- 6/11/2019