Cidade Sustentável quer dizer humanizada

Hoje 80% da humanidade vive nas cidades. No Brasil, esse processo de urbanização aconteceu numa velocidade incrível. São Paulo, por exemplo, tinha 15 mil habitantes em 1850. Saltou para 26 mil, em 1872. Em 1886, já eram quase 75 mil habitantes. Em 1900, eram 281 mil. Hoje, São Paulo é uma das maiores metrópoles do mundo e o principal centro financeiro da América do Sul, com cerca de 12 milhões de habitantes.

É uma explosão demográfica imensa. Esse crescimento aconteceu de forma desordenada e “predatória”.

Excetuando-se o centro expandido, que é mais urbanizado, a grande extensão da cidade se formou por ondas migratórias internas e externas, com a ocupação desordenada do solo urbano, com bairros surgindo sobre áreas verdes desmatadas, cursos d´água ocupados e sendo poluídos, com muitos loteamentos clandestinos e favelas, e cerca de 3 milhões de pessoas morando em ocupações ilegais e sub habitações.

Nesse processo “desurbanístico”, hoje temos cerca de 600 mil pessoas morando em áreas de risco de desabamentos e enchentes.

Outra questão que impera na metrópole é a informalidade. Podemos dizer que 70% dos estabelecimentos comerciais não tem alvará de funcionamento e um dos motivos é a falta do habite-se.

Outra chaga que se instalou na cidade no decorrer dessas décadas foi o crime organizado. Isso não é privilégio de São Paulo. Mas, podemos afirmar que o crime organizado, é hoje, uma força política, econômica e “militar” que perpassa a cidade em todas suas instâncias e em todo seu território.

Nas periferias podemos afirmar sem erro que, além das mídias, são duas forças que catalisam o povo: as igrejas e o crime organizado. Cada um com os seus objetivos.

Nas questões ambientais, o processo de urbanização de São Paulo produziu nesse período todos os tipos de poluição: do ar, das águas, do solo, sonora, visual e também a poluição climática.

Isso é uma realidade concreta que tratamos em nosso livro “Por uma São Paulo mais sustentável.” (Livraria Cultura)

O passivo ambiental aqui é enorme e vem sendo recuperado lentamente, sendo um dos motivos centrais dos nossos 5 mandatos de vereador, com leis, mobilizações e propostas ao executivo.

No que tange aos serviços públicos oferecidos, podemos dizer que São Paulo tem uma rede extensa de prestação de serviços.

São 1000 Unidades de Saúde Municipais, que se somam a grande Rede Estadual e a medicina de convênio.

São 3844 escolas municipais e conveniadas (Escolas, Centro de Educação, Centro Educacional, Centro Municipal, Creche, Movimento de Alfabetização) e mais as estaduais e ainda as particulares.

São 107 parques municipais e 6 estaduais.

São cerca de 45.000 ônibus, entre os municipais, os intermunicipais, os fretados e os de turismo, sendo 15.000 ônibus urbanos. Ainda têm os trens, Metrô, 40 mil táxis, entre outras modalidades. É uma rede de transporte terrestre considerável.

Podemos ainda falar dos 25.000 policiais militares, 20.000 policiais civis e 6 mil guardas municipais, na segurança pública.

É uma rede gigantesca de serviços públicos oferecidos, porém não se pode afirmar que são suficientes.

Seja pela demanda crescente de exigências da população local, seja pelos milhões de pessoas que chegam a São Paulo de todos os cantos do país, e de fora dele, para se utilizar desses serviços públicos.

Por outro lado São Paulo é também a terra da oportunidade econômica, com aproximadamente 13% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil. A economia de São Paulo forma o maior PIB municipal do Brasil, fazendo da capital paulista a 10ª mais rica do mundo e, segundo previsões, será em 2025, a 6ª cidade mais rica do planeta.

É a cidade da diversidade de povos, de sotaques, de comidas.

É a marca cultural do país, nas artes, na ciência, no entretenimento, na moda, na produção intelectual e política.

Mas é a cidade da desigualdade, do abismo social. 

Esse é o contraste que vivemos.

A felicidade e o sofrimento ao alcance de nossas mãos em todas as casas, em todas as calçadas, em todas as esquinas.

Essa é a cidade que encaro desde acordar, muito cedo, até deitar, muito tarde, há 50 anos, quando para cá eu vim estudar medicina.

Como morador, como profissional, como representante público, tenho dentro de minha mente este contraste.

Meu trabalho é buscar diminuir o sofrimento e caminhar para aumentar a felicidade, a convivência humana, a solidariedade, a sustentabilidade, numa “nação” chamada São Paulo.

Gilberto Natalini
Médico, Ambientalista e Vereador (PV/SP)