Tumores: O SUS continua descendo morro abaixo…

No meu dia a dia como médico tenho encontrado muitos casos de pessoas que são diagnosticadas com câncer. Parece, e deve ser real, que o número de certos tumores malignos segue aumentando sua incidência na população.

Isso se deve a diversas causas: maior longevidade da população, uso de agrotóxicos nos alimentos, poluição ambiental, hábitos pessoais (como tabaco e outros), e também causas genéticas.

Também sabemos que avançou muito o arsenal terapêutico para o câncer, o que tem possibilitado salvar e prolongar a vida das pessoas, quando elas iniciam o tratamento precoce e de forma correta.

Aí começam os problemas de nossa população dependente do SUS. As Unidades de Saúde, por motivos variados, muitas vezes só detectam o câncer de uma pessoa numa fase mais avançada. A prevenção dos tumores não tem sido satisfatória no SUS. Depois de diagnosticada a doença, começa o calvário do paciente.

A UBS tem como tarefa encaminhar o caso para centros mais especializados de oncologia, onde exista o especialista, os exames indicados e o tratamento que pode ser cirúrgico, quimioterápico, radioterápico, ou todos.

A partir do diagnóstico começa o sofrimento duplo do paciente: primeiro dele se descobrir com a doença e depois por ter imensa dificuldade de achar uma porta aberta para o tratamento especializado. Conheço vários casos onde a pessoa ficou meses para passar em uma primeira consulta num Centro de Oncologia. Conheço outros casos, que pela demora, o tumor se espalhou e o paciente veio a falecer, por causa da desassistência na rede pública. 

O câncer deve ser, em breve, a primeira causa de morte no Brasil, ultrapassando as doenças cardiovasculares. O Brasil e a cidade de São Paulo não estão preparados para essa realidade e essa demanda crescente.

Temos aqui na cidade Centros de excelência no tratamento de tumores, na rede pública: o IBCC, o ICESP, o Instituto Arnaldo Vieira de Carvalho, o Hospital Pérola Byington, o Hospital do Homem, o Hospital das Clínicas, o Hospital São Paulo, a Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, dentre vários outros hospitais do SUS. Todos absolutamente abarrotados pela demanda, com filas de espera, e sobrecarga de pacientes. Sem vagas suficientes para atender a todos.

A medicina avançou na luta contra o câncer, e agora o câncer avança contra os serviços especializados, com a imensa pressão da demanda. Há muitas pessoas morrendo de câncer por desassistência ou assistência tardia.

O motivo disso é conhecido, mas eu vou repetir: os recursos destinados ao SUS, e em particular à área de tumores são absolutamente insuficientes para atender a demanda. Somando todo o recurso público da saúde, temos R$ 3,66, por brasileiro, por ano, para promoção, prevenção, cura e reabilitação. Nem um milagre conseguiria fazer o Sistema funcionar bem.

Além disso, temos o grave problema da má gestão. Falta de interação entre os Governos e os Órgãos de Saúde, serviços duplicados, falta de resolutividade e desperdício de recursos. E o pior de todos os problemas da gestão pública: a corrupção crônica que corrói os serviços públicos no Brasil.

Por tudo isso uma pessoa que se descobre com câncer em São Paulo vai sofrer, como já dissemos, duplamente: por ter se descoberto com a doença e o calvário para conseguir no tempo devido, a assistência médica necessária. Não consigo me conformar com isso.

Conclamo todos, pacientes, familiares, profissionais da saúde, população em geral, para que, com luta e determinação possamos mudar esse quadro trágico da saúde brasileira.

Gilberto Natalini
Médico e Vereador (PV/SP)

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