São Paulo e a Sustentabilidade

Os tempos não são favoráveis. Vivemos no Brasil e em São Paulo uma profunda crise múltipla: política, econômica, social, ambiental e moral. A cidade de São Paulo tem, a duras penas, tido avanços ainda que modestos, no que diz respeito à preservação e recuperação do meio ambiente.

De 2005 a 2012 saltou de 36 para 100 parques municipais. Nessa mesma época foram criados os programas Defesa das Águas e Córrego Limpo, que efetivamente barraram as ocupações dos mananciais, preservaram áreas verdes e recuperaram leitos e margens de córregos, com a implantação de Parques Lineares. Plantou-se nesse mesmo período, cerca de 1,5 milhão de árvores na cidade. E em 2011/2012 havia a chamada Ecofrota com 1400 ônibus movidos a Biodiesel B20, além da compra de alguns trólebus.
São Paulo participou de todos os encontros do C40 e chegou a sediar a Secretaria desse importante Fórum de Cidades sobre Mudanças Climáticas.
Aprovamos em 2009 a Lei 14.933, pioneira nas cidades brasileiras sobre Mudanças Climáticas.
A Secretaria do Verde e do Meio Ambiente chegou a 2012 com um orçamento de 1,1% do orçamento municipal. Abria-se uma fase favorável à sustentabilidade.
Com a mudança de gestão em 2013, as coisas desandaram:
– Foram 4 secretários do Verde e do Meio Ambiente em 4 anos, um por ano.
– A Secretaria do Verde chegou a 2016 com 0,3% do orçamento da cidade, reduzindo mais de 3 vezes em relação a 2012.
– A Ecofrota acabou.
– O plantio de árvores despencou.
– Apenas 1 parque, o Chácara do Jockey, foi entregue em 4 anos.
– Foram mais de 600 invasões entre 2013 e 2016.
– A fiscalização ambiental reduziu-se com o esvaziamento do Departamento de Gestão Descentralizada (DGD).
– As Operações Defesa das Águas e Córrego Limpo, tão importantes para a cidade, não foram renovadas e pararam suas atividades.
– A Lei de Mudanças Climáticas deixou de ser cumprida e o Comitê de Clima foi esvaziado.
Chegamos em 2017 com uma nova gestão. A convite, assumi a Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente. Fiquei lá por sete meses e meio. Com três meses entregamos o 1° parque: o do Chuvisco. Começamos a implantação do parque dos Búfalos e conseguimos a negociação vitoriosa do Parque Augusta.
Como não recebemos da gestão anterior contratos de manutenção e vigilância dos parques, além de abrir licitações, fizemos 105 mutirões populares de recuperação de 73 parques que estavam detonados, para mantê-los abertos e funcionando normalmente.
Na Secretaria do Verde e do Meio Ambiente:
– Reorganizamos os DGDs.
– Reimplantamos o TID.
– Criamos a Praça de Atendimento.
– Retomamos os CADES e os Conselhos de Parques.
– Ativamos e reorganizamos o Comitê do Clima.
– Articulamos a assinatura da Operação Defesa das Águas, do Córrego Limpo e criamos o Comitê dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) na Prefeitura de São Paulo.
– Impedimos, junto com a Secretaria de Segurança Urbana, cerca de 150 ocupações em áreas verdes.
– Criamos o Comitê de Arborização.
– Plantamos 55 mil árvores de janeiro a maio de 2017.
– Abrimos a Secretaria do Verde para a sociedade civil.
Ao alterar regras do Licenciamento Ambiental na cidade, houve choque com interesses do setor de incorporação imobiliária e em meados de agosto fui demitido da Secretaria.
Brinco comigo mesmo, dizendo que sou um caso raro de demissão “por excesso de probidade”.
Tenho acompanhado e trabalhado para tornar São Paulo uma cidade mais sustentável, ambientalmente melhor e com mais qualidade de vida.
Não tem sido uma luta fácil:
– A questão climática sumiu da pauta da cidade.
– O combate à poluição do ar está marcando passo.
– O plantio de árvores está pífio.
– Nenhum novo parque foi entregue e a conservação dos parques existentes está quase abandonada.
– A devastação das áreas verdes, inclusive as áreas de mananciais, avança numa velocidade assustadora.
– A fiscalização ambiental sumiu.
As operações Defesa das Águas e Córrego Limpo, apesar de assinados em 2017 e ensaiando recomeçar, continua inerte. Não é prioridade de Governo.
Assim não temos nada a comemorar referente a avanços ambientais em São Paulo. Isso é um legado tenebroso para as atuais e futuras gerações. São Paulo perdeu seu protagonismo na sustentabilidade.
Gilberto Natalini- Médico, Ambientalista e Vereador (PV/SP)

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