Gilberto Natalini SP

Para os mais longevos, como eu, a chegada do século XXI representava uma utopia, social e científica, que traria um grande avanço na existência da humanidade.

Esse era o sonho de gerações inteiras!

O sonho se desfez em brumas, nem sempre agradáveis de serem vividas.

Agora, no segundo quarto do século, consolida-se mais o quadro real de nossas vivências.

É claro que temos avanços na qualidade de vida, nas conquistas técnicas e científicas, que encurtam distâncias, conectam as pessoas, aumentam o tempo de existência, fazem milagres na medicina, na informática, na produtividade agrícola e industrial, na criação de riquezas.

Sim, isso é real!

Mas a que custo???

Vemos a olho nu, os recursos naturais do Planeta, na terra, na água e no ar, sendo delapidados, numa exploração desplanejada e gananciosa, retirando muito mais do planeta do que sua capacidade de regeneração.

A depredação ambiental é uma das marcas principais desses tempos.

Por outro lado, também vivemos a imensa produção de riquezas proporcionada pela revolução tecnológica. Porém, a desigualdade e a exclusão social jogam na pobreza e na miséria bilhões de seres humanos entorno da terra, que não tem o que comer e o que beber.

No quadro geopolítico desenha-se uma situação onde três superpotências numa combinação tácita, dividem o planeta em três partes e cada uma vai se apoderando, econômica e militarmente de seu pretenso pedaço.

Os EUA, a Rússia e a China duelam por seus domínios numa nova “guerra fria”, onde direita e esquerda não contam mais, e as autocracias vão asfixiando cada vez mais as democracias liberais.

A Europa envelheceu. Perdeu o glamour diante das hostes de imigrantes da fome e do clima.

A África sofre de desnutrição crônica na falta de comida, mas também de falta de perspectivas.

O Oriente Médio, adora soltar bombas uns sobre os outros.

A América Latina respira por aparelhos, sem força para se erguer social e economicamente.

As guerras hoje são por regiões e com drones, e as anexações são por petróleo, por terras raras ou outros recursos naturais.

A paz mundial que sonhamos outrora tornou-se uma quimera, e cada um dos três impérios se expande pela força ou pela grana, invadindo, ameaçando, comprando e subornando nações inteiras, nos seus territórios planetários.

Por cima disso tudo, temos o aquecimento global produzido pela mão humana, com seus fenômenos climáticos extremos, universalmente destruidores.

Enquanto parcelas enormes da população mundial se distrai nas redes sociais, muitas delas fakeadas, e o mundo do trabalho se modifica pela tecnologia e mecanização, os (poucos) ricos ficam cada vez mais ricos, a biodiversidade fica cada vez mais pobre, o clima age como enlouquecido, as democracias fenecem todos os dias, e a Humanidade vive um stress existencial jamais vivido em sua história.

Nossa utopia está combalida, mas não morreu.

Quem topa reanimá-la?

Vamos nessa!!!

Gilberto Natalini- Médico e Ambientalista