Nesse quarto inicial do século 21, onde a esperança era a modernidade e a felicidade coletiva e individual, nos deparamos com uma realidade cruel.
Nossa esperança não se concretizou, e tudo pelo qual trabalhamos durante décadas parece que empacou e regrediu.
O cenário do mundo nos assusta!
Mas vamos por partes.
É claro que reconhecemos os imensos avanços tecnológicos e científicos, que nos trouxeram a informática, a biotecnologia, a cibernética, a astrofísica a inteligência artificial e todas as outras fontes de conhecimento.
A velocidade das novidades é tamanha que nos encanta e as vezes nos agride.
Não devemos dar detalhes aqui das conquistas da “vida moderna”, em todos os campos do conhecimento e da prática.
Isso tudo não tem se refletido plenamente na qualidade do cotidiano das pessoas. Não mesmo!
Na economia, a renda da produção de riquezas que é gigantesca, graças à modernização, tem se concentrado cada vez mais nas mãos de poucos, a ponto de que 26 pessoas no planeta detêm a riqueza de 4 bilhões de seres humanos.
A pobreza e a fome expandem-se pelos continentes como uma pandemia de “peste social”. A África é a mais sofrida, seguida pela Ásia e pela América Latina.
A relação entre países ainda se dá sob a forma de espoliação de recursos naturais, e boa parte das vezes pela força. A desigualdade social e a miséria batem recordes.
Por outro lado, o desenvolvimento econômico, que é enorme, impulsionado por todas as conquistas tecnológicas e científicas, bate recorde no consumo de bens, na agricultura e nos serviços.
Mas tem sido um desenvolvimento baseado na exploração desplanejada e predatória dos recursos naturais do planeta.
Na metade do ano já extraímos todos os recursos que a Terra pode nos dar por um ano inteiro. E cada vez mais!
Além disso grande parte dos resíduos produzidos pelo consumo humano é “jogada na natureza”, impactando destrutivamente o meio ambiente e a vida.
Agora, vieram com força os fenômenos extremos das mudanças climáticas, com eventos agressivos do clima, produzidos pelas emissões de gases do efeito estufa oriundos da queima dos combustíveis fósseis.
Todos esses fatores, somados, impactam na vida e na organização social da humanidade.
A pobreza e as degradações ambientais provocam enormes ondas migratórias. A luta pela água e por comida espalha-se nos países mais pobres. As doenças consequentes dessa situação matam milhões de pessoas pelo mundo, por viroses, calor e frio, escassez hídrica e alimentar, chuvas violentas, secas prolongadas e desassistência médica.
A reação dos poderes globais tem sido catastrófica. Os líderes autocráticos do mundo, ao invés de avançar na cooperação e entendimento internacional, fomentam a disputa entre os países, o questionamento da governança global, o enfraquecimento da ONU e suas agências como a OMS.
As guerras e os genocídios são manifestações da crueldade, da barbárie e da imbecilidade humana desde os primórdios. São ações que dizimam vidas e destroem o meio ambiente e as cidades. Recrudescem agora, como espectro de conflito global.
A guerra da Ucrânia, a guerra de Gaza, a invasão da Venezuela, a guerra do Irã, as ameaças à Cuba, a ameaça ao Canadá e à Groelândia são exemplos trágicos que estamos vivendo.
Pela “direita”, Trump, “o xerife do mundo”, os sauditas, Netanyahu, Bukele, Milei, etc, e pela “esquerda”, Xi, Putin, Jong, aiatolás, o hezbollah, etc, provocam a polarização política extrema. São os agentes modernos da barbárie.
As ameaças, as invasões territoriais, e as guerras abertas são a tônica das relações internacionais que vão se impondo na dominação e na apropriação dos recursos naturais alheios.
Isso aprofunda a crise social, a desigualdade, a matança de pessoas, a grave crise ambiental e climática. Cultiva a desesperança, o individualismo e o ódio.
Mais do que nunca precisamos de Paz, de solidariedade humana, de empatia, de compaixão, de proteção e recuperação da natureza.
Mais do nunca os humanos precisam ser humanos, no mais alto significado da palavra.
Esse é o desafio que nos impõe, esse malparado primeiro quarto do século 21.
Gilberto Natalini- Médico e Ambientalista