A cidade de São Paulo experimentou há pouco mais uma situação climática extrema.
Choveu por aqui, 60 mm em 40 minutos. Caiu água em toda a cidade, mas o volume maior foi sobre a área do Anhangabaú, Vila Mariana e Ibirapuera.
Vimos coisas que nunca tínhamos visto, ou que vimos há bastante tempo.
O Lago do Ibirapuera transbordou, jogando água nas ruas e casas das cercanias. O Tribunal de Contas do Município, teve 1,90 m de água em seu pátio e estacionamento. A Estação Liberdade do Metrô viu suas escadarias transformadas em cachoeira. No Túnel do Anhangabaú a água cobriu os carros que ali passavam.
Na periferia, o bairro que mais sofreu foi a Vila Brasilândia, onde a enxurrada e os deslizamentos mataram uma pessoa.
O trânsito parou, bairros inteiros tiveram alagamentos, o prejuízo, humano e econômico, foram enormes. Os pontos de ônibus ficaram superlotados com as pessoas tentando voltar para casa depois do “dilúvio”.
O que nos fica de lição?
Tenho repetido há muito tempo que São Paulo é demasiadamente impermeabilizada, e nas chuvas mais violentas quase toda a água escorre pelo asfalto e cimento, fazendo encher as regiões baixas e transbordar os córregos e os rios.
O Plano Diretor em vigor, permitiu uma verticalização exagerada, desplanejada e agressiva, com uma enorme construção de prédios em locais inadequados aumentando a impermeabilização do solo.
Com as Mudanças Climáticas, e suas chuvas violentas, o volume de água que cai sobre a cidade encontra o solo urbano impermeável, e as consequências são cada vez mais graves.
É claro que São Paulo avançou na prevenção e combate a esses eventos.
A criação de parques urbanos, e hoje já são 125, mantém e amplia áreas de solo permeável. O plantio de cerca de 2 milhões de árvores nos últimos 20 anos, a manutenção e aumento da rede de drenagem pluvial, com a limpeza das galerias e córregos, e a construção dos piscinões, ajudam a diminuir o impacto das enchentes.
Mas, a permeabilização do solo urbano tem sido realizada em velocidade insuficiente diante da emergência climática.
A cada ano a tendência das chuvas é ser cada vez mais violentas, localizadas, com volumes cada vez maiores, e em tempos menores.
Portanto é urgente adaptar a Cidade a esta situação, ampliando a permeabilidade do solo, retendo água de chuva e aumentando a rede de drenagem. A implantação dos Parques Lineares ao longo dos córregos é uma solução necessária e urgente.
A coleta de água de chuva para reaproveitamento ajuda nesse processo, com reservatórios domiciliares, cisternas, bambonas e outros.
Além disso, as calçadas devem ser adaptadas para serem permeáveis, seja com piso drenante, ou com área de ajardinamento, quando for possível. Isso já foi previsto no Programa Passeio Livre, que precisa ser ampliado.
O fato é que um conjunto de políticas públicas para a adaptação climática precisa ser implementado. Muitas já começaram, mas a velocidade de implantação ainda é insuficiente frente aos desafios das mudanças climáticas.
Gilberto Natalini- Médico e Ambientalista