“AS MAGIAS DA SUSTENTABILIDADE”

Lançamos há pouco o livro “As Magias da Sustentabilidade”, com 23 coautores, onde escrevi o capítulo 2. É uma publicação singela, que relata as nossas diversas vivencias sobre o assunto. Hoje, a palavra sustentabilidade está na moda, porém, mais que uma palavra, ela deve se generalizar como prática e estilo de vida. O fato grave e real é que a relação dos humanos com a natureza está cada vez pior. A nossa capacidade de explorar e destruir os recursos naturais aumentou exponencialmente com as descobertas científicas e tecnológicas, chegando a um limite perigoso. A Mãe Terra não consegue mais recompor o que a humanidade retira do solo, da água e do ar, não só de minerais como também de biodiversidade. A exaustão do planeta é tamanha que no mês de agosto já extraímos tudo o que a Terra poderia nos dar no ano. Daí até o final de 12 meses é só devastação. A situação é muito grave e preocupante, e para piorar, grande parte dos resíduos do enorme consumo humano, são devolvidos para o meio ambiente de forma irregular, contaminando o solo, as águas e o ar. É isso que se chama de insustentabilidade. É claro, que muitas iniciativas vêm sendo tomadas ao redor do mundo no sentido de evitar a contaminação ambiental, de racionalizar o uso da água e de limpar o ar. No caso específico da emissão dos gases de efeito estufa, que provocam o aquecimento do planeta e as mudanças climáticas, também há muitas iniciativas para buscar energias limpas e evitar o petróleo. Porém, todas essas medidas de preservação, de mitigação e adaptação às mudanças climáticas ainda são muito aquém das necessidades. Por isso, precisamos sim da magia, na transformação dos modos de produção, de consumo, de manejo dos resíduos, para transformar a consciência e a ação humana em suas relações com “a nossa casa comum”. Aí está a magia da sustentabilidade. Gilberto Natalini- Médico e Ambientalista
SÃO PAULO E O ORÇAMENTO CLIMÁTICO

A Cidade de São Paulo sempre inovando. Agora, foi criado o chamado Orçamento Climático, e esse ano está consolidado em 28 bilhões de reais. Esse orçamento é distribuído em diversas Secretarias Municipais e diz respeito aos gastos com ações de mitigação e adaptação nos fenômenos das mudanças climáticas. Assim, estão previstos para 2026 como alguns exemplos: drenagem pluvial e áreas de riscos geológicos – 10 bilhões de reais; manutenção e implantação de parques, arborização urbana – 5 bilhões; eletrificação da frota de ônibus, corredores de transporte público e modernização semafórica – 39 bilhões; regularização e urbanização de favelas, programa mananciais – 16 bilhões de reais. O orçamento total da Cidade é de 130 bilhões de reais. A destinação de 25% disso para ações climáticas é uma inovação positiva no caminho de uma São Paulo mais resiliente e mais sustentável. É claro que ainda não é suficiente diante de todo o enorme desafio que vulnerabilidade climática exige. E também é preciso seguir com detalhes a execução desses recursos carimbados para as políticas ambientais. Mas, sem dúvida, a metrópole paulistana sai na frente mais uma vez. A Lei Municipal das Mudanças Climáticas de 2009, foi pioneira no Brasil, assim como a Lei de Reuso da Água e a eletrificação da frota urbana de ônibus, entre muitas outras legislações. Quase 80% da população do mundo vive nas cidades. Assim, esses aglomerados de pessoas, as vezes gigantescos, são os mais vulneráveis diante dos eventos climáticos extremos, como chuvas violentas, calor intenso, ciclones e tornados, e escassez hídrica. Em várias partes do globo, vivemos essas agressões da natureza. Aqui no Brasil temos os exemplos do Rio Grande do Sul, da Serra Fluminense, do Litoral Norte Paulista, e agora, várias cidades em Minas Gerais. Existem cerca de 10 milhões de brasileiros morando em áreas de risco, sujeitos a deslizamento e enchentes. No ano passado muitos milhares de pessoas morreram em consequência de ondas de calor, que desencadeiam doenças como AVC e infarto do miocárdio. No Paraná, uma cidade inteira foi destruída por um tornado. São Paulo tem muitas áreas de vulnerabilidade social, ambiental e climática. E tem sido realizadas várias iniciativas para diminuir esse risco. Mas é preciso dar mais velocidade nessas ações, pois o tempo não para. O Orçamento Climático é uma boa iniciativa para avançarmos. Gilberto Natalini- Médico e Ambientalista
GUERRA, É GUERRA. PAZ, É VIDA!

Nesse quarto inicial do século 21, onde a esperança era a modernidade e a felicidade coletiva e individual, nos deparamos com uma realidade cruel. Nossa esperança não se concretizou, e tudo pelo qual trabalhamos durante décadas parece que empacou e regrediu. O cenário do mundo nos assusta! Mas vamos por partes. É claro que reconhecemos os imensos avanços tecnológicos e científicos, que nos trouxeram a informática, a biotecnologia, a cibernética, a astrofísica a inteligência artificial e todas as outras fontes de conhecimento. A velocidade das novidades é tamanha que nos encanta e as vezes nos agride. Não devemos dar detalhes aqui das conquistas da “vida moderna”, em todos os campos do conhecimento e da prática. Isso tudo não tem se refletido plenamente na qualidade do cotidiano das pessoas. Não mesmo! Na economia, a renda da produção de riquezas que é gigantesca, graças à modernização, tem se concentrado cada vez mais nas mãos de poucos, a ponto de que 26 pessoas no planeta detêm a riqueza de 4 bilhões de seres humanos. A pobreza e a fome expandem-se pelos continentes como uma pandemia de “peste social”. A África é a mais sofrida, seguida pela Ásia e pela América Latina. A relação entre países ainda se dá sob a forma de espoliação de recursos naturais, e boa parte das vezes pela força. A desigualdade social e a miséria batem recordes. Por outro lado, o desenvolvimento econômico, que é enorme, impulsionado por todas as conquistas tecnológicas e científicas, bate recorde no consumo de bens, na agricultura e nos serviços. Mas tem sido um desenvolvimento baseado na exploração desplanejada e predatória dos recursos naturais do planeta. Na metade do ano já extraímos todos os recursos que a Terra pode nos dar por um ano inteiro. E cada vez mais! Além disso grande parte dos resíduos produzidos pelo consumo humano é “jogada na natureza”, impactando destrutivamente o meio ambiente e a vida. Agora, vieram com força os fenômenos extremos das mudanças climáticas, com eventos agressivos do clima, produzidos pelas emissões de gases do efeito estufa oriundos da queima dos combustíveis fósseis. Todos esses fatores, somados, impactam na vida e na organização social da humanidade. A pobreza e as degradações ambientais provocam enormes ondas migratórias. A luta pela água e por comida espalha-se nos países mais pobres. As doenças consequentes dessa situação matam milhões de pessoas pelo mundo, por viroses, calor e frio, escassez hídrica e alimentar, chuvas violentas, secas prolongadas e desassistência médica. A reação dos poderes globais tem sido catastrófica. Os líderes autocráticos do mundo, ao invés de avançar na cooperação e entendimento internacional, fomentam a disputa entre os países, o questionamento da governança global, o enfraquecimento da ONU e suas agências como a OMS. As guerras e os genocídios são manifestações da crueldade, da barbárie e da imbecilidade humana desde os primórdios. São ações que dizimam vidas e destroem o meio ambiente e as cidades. Recrudescem agora, como espectro de conflito global. A guerra da Ucrânia, a guerra de Gaza, a invasão da Venezuela, a guerra do Irã, as ameaças à Cuba, a ameaça ao Canadá e à Groelândia são exemplos trágicos que estamos vivendo. Pela “direita”, Trump, “o xerife do mundo”, os sauditas, Netanyahu, Bukele, Milei, etc, e pela “esquerda”, Xi, Putin, Jong, aiatolás, o hezbollah, etc, provocam a polarização política extrema. São os agentes modernos da barbárie. As ameaças, as invasões territoriais, e as guerras abertas são a tônica das relações internacionais que vão se impondo na dominação e na apropriação dos recursos naturais alheios. Isso aprofunda a crise social, a desigualdade, a matança de pessoas, a grave crise ambiental e climática. Cultiva a desesperança, o individualismo e o ódio. Mais do que nunca precisamos de Paz, de solidariedade humana, de empatia, de compaixão, de proteção e recuperação da natureza. Mais do nunca os humanos precisam ser humanos, no mais alto significado da palavra. Esse é o desafio que nos impõe, esse malparado primeiro quarto do século 21. Gilberto Natalini- Médico e Ambientalista
Viver é gostar de gente

Veja abaixo a entrevista com os médicos Gilberto Natalini e Henrique Francé, que há 50 anos realizam serviços voluntários promovidos pelos médicos do Cangaíba.
VORCARO: Mais um Capo na República

Vivemos hoje o inferno astral da ética e moralidade no Brasil. O caso Master coroou 25 anos de grandes escândalos públicos e privados, envolvendo o poder público, o mundo empresarial e muitas instituições da sociedade civil. Parece que a degeneração do caráter nacional é um poço que não tem fundo. No caso do Banco Master, o escândalo da vez, e de seu capo Vorcaro, estão envolvidas grandes figuras nacionais: governantes, juízes supremos, ”nobres parlamentares”, empresários e outros que surgirão. Um escândalo nacional! Vorcaro, pelo que parece, tem uma atitude de mafioso, articulado, ameaçador, perigoso. Um criminoso completo. Ele envolveu em suas tramoias mais de um ministro da suprema corte, governantes, vários parlamentares, gente do mundo das finanças, partidos políticos da “direita” e da “esquerda’. Um mago mafioso! Seria cômico, se não fosse trágico, a ginástica que vários próceres da república estão fazendo para abafar, sufocar e esconder os fatos do escândalo. Manipula-se a lei, a política, a justiça, a opinião pública para proteger Vorcaro e seus asseclas. O cheiro da podridão se espalha pelo país. É um susto após o outro, dia a dia, com cada nova notícia. A última, chocante, foi o “suicídio” do “Sicário” do Vorcaro, dentro de uma cela da Polícia Federal. É importante dizer que o trabalho da Polícia Federal tem sido estratégico, nesse, e outros casos escabrosos. Mas a “morte súbita” de um detento considerado uma enciclopédia do crime e que “se suicidou” numa cela de prisão, é no mínimo misteriosa. Precisa ser muito bem esclarecida, pois a população está com a impressão que houve “queima de arquivo”. Sicário era um homem bomba! Desde 2002, os escândalos no Brasil explodem, imensos, atingindo os governos Lula, Dilma, Temer, Bolsonaro e agora Lula de novo. Foi o Mensalão, o Petrolão, o Rachadão, o Emendão, o Descontão, o Masterzão e o Toffolão. O poder e as instituições brasileiras foram ocupados pela máfia do crime organizado. A corrupção e a roubalheira se tornaram supra ideológicas e inter partidárias. Brasileiros decentes: uni-vos! Gilberto Natalini- Médico e Ambientalista
Carta Aberta Médicos pelo Clima- APM

A Associação Paulista de Medicina acaba de publicar a carta aberta Médicos pelo Clima. Conheça o teor no link- https://www.apm.org.br/wp-content/uploads/Carta-aberta-Medicos-pelo-Clima-1.pdf
GERAÇÃO AR CONDICIONADO

O aquecimento global é uma realidade cientifica, social, econômica e ambiental. Embora ainda haja os que negam, duvidam, e desdenhem, por desconhecimento, por descrença ou por má fé, os fatos mostram que o planeta vem se aquecendo e provocando as mudanças climáticas e seus fenômenos extremos. Um dos fenômenos mais sentidos por todos são as ondas de calor, cada vez mais intensas. Há épocas que as temperaturas ficam insuportáveis, chegando a níveis incompatíveis com a saúde e com a vida. Isso vem acontecendo em todas as partes do mundo de forma repetida. A reação dos governos e das pessoas tem sido insuficiente para mitigar e prevenir o evento. A saída para o grave incomodo tem sido “a mais fácil e paliativa”. A climatização dos ambientes internos passou a ser uma premissa. O ar condicionado transformou-se num fetiche humano. Mais um! Sabemos que a climatização dos espaços internos não é nova. Nos carros foi quase uma exigência de consumo, e isso já faz tempo. Nas residências e imóveis comerciais também foi ganhando escala. Mas nos tempos atuais, o ar condicionado tornou-se um refúgio imperativo para a proteção das pessoas contra o calor cada vez mais severo. Aqui no Brasil e em outras partes do mundo, temperaturas de 40/45 graus Celsius tem sido uma constante observada. No Rio de Janeiro, há pouco tempo, a sensação térmica chegou a 49ºC. Isso é causa certa de adoecimento e morte. Segundo dados citados pelo climatologista Carlos Nobre, o calor extremo é a maior causa de morte nas mudanças climáticas. Os cálculos são imprecisos, pois a medicina ainda não dominou o assunto, a ponto de diagnosticar todos os casos. Daí a subnotificação. A busca por energia limpa e a substituição dos combustíveis fósseis, causa principal emissão dos gases de efeito estufa, andam no ritmo muito aquém do necessário. Por isso o planeta continua no caminho do aquecimento. As instituições e as pessoas buscam a climatização dos ambientes como compensação para suportar as temperaturas. É comum vermos nas ruas, em dias de grande calor, as pessoas entrando em comércios, escritórios e repartições que têm ar condicionado, somente para proteger-se do calor extremo. A produção e a instalação dos condicionadores de ar têm aumentado vertiginosamente. O número de residências e outros imóveis que vem instalando esses aparelhos cresceu muito nos últimos tempos. Isso exige dinheiro para comprar, instalar e manter o sistema de refrigeração. Soma-se a isso o aumento significativo do gasto e do custo da energia elétrica necessária. No Brasil somente 20% da população tem acesso a aparelhos de ar condicionado. Parte dos “sem ar” viram-se com ventiladores mesmo, e parte significativa das pessoas nem isso possui. É preciso explicitar as contraindicações da climatização do ar: além dos custos da implantação e da sobrecarga no gasto de eletricidade, temos também os aspectos da saúde, pela pouca umidade desse ar, o choque térmico, e a contaminação por aparelhos malconservados. Assim, num resumo rápido, temos perdido a batalha contra as mudanças climáticas. O calor extremo tem sido o mais nocivo dos fenômenos climáticos: A saída para isso tem sido individual buscando a climatização de cada imóvel; as consequências são o gasto considerável com a instalação, a manutenção e a energia elétrica; só pequena parte da população do Brasil tem condições de adquirir o aparelho; temos ainda os agravos da saúde produzidos pelo ar condicionado. E por fim é mais uma solução paliativa para o problema mais grave do aquecimento global que continua relevado por grande parte da humanidade. Gilberto Natalini- Médico e Ambientalista
PAÍS DO FUTURO… DISTANTE

O Brasil nunca foi um país fácil para se viver e se compreender. Desde seu descobrimento cometeu muitos “pecados” e muitas “redenções”. Os descobridores vieram aqui para delapidar nossas riquezas naturais: madeira, minérios, pedras preciosas, biodiversidade e outras tantas. E assim o fizeram. Para isso submeteram e quase exterminaram os povos originários de nossa terra. Quando chegaram a população do lugar era de 5 milhões de pessoas, hoje são cerca de 1,5 milhão. Depois de um tempo foram à África buscar a mão de obra escrava. A escravidão durou 300 anos e fomos o último país do mundo a aboli-la. A terra nativa foi dividida em capitanias e doada a exploradores vindos da matriz, que extraíram tudo que podiam, a chicotadas e assassinatos. Chegamos à independência 300 anos depois. Veio o Império, mudou o poder, mas permaneceu o modus operandi de dependência e submissão. Menos de 100 anos depois chegou a república como um golpe de Estado, uma quartelada chefiada pelo Marechal Deodoro. Nessa altura já nos instalamos como um país agrícola, de grandes latifúndios, enorme desigualdade social e as marcas visíveis da escravidão e do desenvolvimento predatório. Podemos afirmar sem errar, que essas marcas persistem até hoje. O exercício do poder se deu, desde o início, sob a forma de forte dominação das elites, em meio a muitos levantes populares, desmandos, abusos, e uma rede de corrupção que passou de geração a geração. É claro que a força da vida promoveu uma miscigenação sem igual, entre os brancos europeus, os negros africanos, os indígenas da terra e os asiáticos que por aqui chegaram. Assim surgiu o brasileiro de hoje, que não tem iguais pelo mundo afora. Isso, segundo Gylberto Freire, nos deu uma força especial, uma forma peculiar de viver, de resistir, de suportar, de criar, de reinventar. O povo brasileiro é sobretudo um forte, criativo, sagaz, trabalhador e sobrevivente de todo esse processo torto de construção de um país. Porém, nossas elites, nativas e estrangeiras, foram e são implacáveis na fome de impor seu modo de comandar. A desigualdade social atingiu níveis insuportáveis. O acumulo de riquezas, e estamos entre a 8ª e a 10ª economia do mundo, se concentra cada vez mais na mão de poucos. A distribuição de renda é feita por meio de bolsas esmolas, que como disse Luís Gonzaga, “vicia o cidadão”. Hoje já são 90 milhões de brasileiros que dependem delas. A exploração de nossas riquezas naturais ainda segue a lógica dos descobridores. O Brasil caminha no seu desenvolvimento depredando suas terras e matas, suas águas, rios, lagos e mares, e sua atmosfera também. Apesar de legislações mil, o modelo de destruição continua no campo e nas cidades. Há algum tempo o Brasil busca um ritmo mais sustentável de desenvolvimento. Mas ainda não conseguiu impô-lo. Desde a Proclamação de República nossa democracia evolui por espasmos, entre períodos de liberdade e regimes autoritários, ou governos populistas de “direita” e “esquerda”. Tivemos os primeiros governos republicanos, logo em seguida à Ditadura de Vargas de tendência nazifascista. Depois um período de democracia liberal, interrompida pelo Golpe Militar de 1964 que durou 21 anos. A redemocratização veio em 1985, e nosso país tem alternado diversos governos populistas ditos de “direita” e “esquerda”. O populismo faz mal à nação porque vive de demagogia, de fisiologismo, de mentiras e factoides. Por fim e não menos importante temos o quesito moralidade. O Brasil é conhecido como um pais corrupto desde o seu descobrimento. Não é à toa que se fala do tal “jeitinho do brasileiro”. Muitos de nossos dirigentes, governantes, lideranças e gente do povo sempre viveram aplicando golpes, burlando as leis, furando as filas, se apropriando de dinheiro alheio. Isso é de domínio público. Após a redemocratização tivemos 2 presidentes impedidos (Collor e Dilma) e quatro presidentes presos (Lula, Temer, Collor e Bolsonaro). Um recorde de bandalheiras. Mas, nos últimos 25 anos a corrupção tomou proporção de pandemia transformando o Brasil numa sequência de esquemas e escândalos avassaladores que nos jogou no 107º lugar no ranking da moralidade pública. Está feio demais de se ver! No último quarto de século tivemos o Mensalão, o Petrolão, o Rachadão, o Emendão, o Descontão, o Masterzão, o Toffolão, e sabe Deus o que mais vem por aí. A corrupção transpassou 4 presidentes e seis governos, todos eles no “olho do furacão”. Ela abrange gente de todos os matizes ideológicas e partidárias, e tomou de assalto os poderes executivo, legislativo, judiciário e líderes empresariais, religiosos, esportivos, comunitários e tantos outros. Ficou insuportável! E agora? O Carnaval passou, e a vida volta à realidade. A doença tomou conta da nação e seus órgãos foram apodrecendo diante da roubalheira. O remédio para isso será amargo e a solução é drástica e dolorosa. Mas terá que acontecer dentro dos limites da Democracia. Reunir os brasileiros do bem, que são muitos, e agir. A ética e a moralidade precisam imperar! Tarefa de gigante! Gilberto Natalini- Médico e Ambientalista
MEIO AMBIENTE, CLIMA E SAÚDE

Aprendi desde a década de 70, nos bancos da Escola Paulista de Medicina (EPM-UNIFESP), que a saúde das pessoas está diretamente relacionada ao lugar que elas vivem e aos hábitos de vida, individuais e sociais. Dessa forma, desenvolvi todo o meu conhecimento e prática médica olhando os pacientes, não só como indivíduo isolado, mas levando em conta seu histórico de vida, o meio ambiente que o cerca e seus hábitos pessoais e coletivos. Essa visão da medicina comprovou-se cada vez mais correta. O médico, além de um conhecedor da fisiopatologia humana, deve ser um ativo agente sócio ambiental, se quiser praticar a profissão de forma mais correta. E assim tenho agido nos últimos 55 anos. Já na Faculdade comecei a atuar no movimento estudantil, lutando por melhores condições de ensino para nós, melhores condições de vida para a população e pela Democracia no Brasil. No decorrer das décadas seguintes, nunca arriei a bandeira, apenas fui acrescentando pontos a ela. Assim fundamos e organizamos o movimento dos residentes no Brasil. Estivemos na Diretoria do Sindicato dos Médicos/SP por três gestões e atuamos na Associação Paulista de Medicina desde o final da década de 70. Também fomos para a periferia da Cidade de São Paulo, criando o Voluntariado Médico do Cangaiba e fundando a Associação Popular de Saúde, onde atuamos até hoje. Em todas essas frentes de atuação, propusemos e executamos um trabalho de humanização do atendimento médico, atuando socialmente para melhorar as condições de vida das comunidades e proteger o meio ambiente. Participamos ativamente da proposição e criação do SUS, desde o início, passando pela Assembleia Nacional Constituinte e as Leis Complementares. Desde 1980 já vínhamos atuando como chefe do Departamento de Medicina do Trabalho do Sindicato dos Motoristas de Ônibus de São Paulo, onde criamos uma extensa ação de melhoria das condições dos ônibus da Cidade. Mantenho consultório há 40 anos, atendendo clínica médica e cirúrgica. Em 1989 fui concursado como médico na Prefeitura de São Paulo. Em seguida assumi o cargo de Coordenador de Saúde do Trabalhador do Distrito e do Hospital do Campo Limpo. Ali desenvolvemos um extenso trabalho de Saúde do Trabalhador, com atendimento a pacientes e ação preventiva, educativa e fiscalizatória nos ambientes de trabalho da região. Todas essas ações nos diversos locais descritos seguiram a premissa inicial de meio ambiente e saúde. Em 1997, assumi a Secretaria de Saúde de Diadema. Logo em seguida fui eleito Presidente do Conselho de Secretários Municipais de Saúde do Estado de São Paulo (COSEMS), onde fiquei por 2 gestões, e em seguida eleito para a Presidência do Conselho Nacional dos Secretários Municipais de Saúde do Brasil. Foram 4 anos de implantação prática do SUS nos 5561 municípios do país. Um tempo riquíssimo de expandir a rede pública de saúde e sustentabilidade. O José Serra era Ministro da Saúde e a parceria foi intensa. Foi quando criamos a rede de Municípios Saudáveis. Para se ter uma ideia, em 1999 quando assumimos o CONASEMS, tinham 1800 equipes de PSF (Programa de Saúde da Família) no Brasil. Quando sai, em 2000, já existiam 18 mil equipes. Um trabalho de parceria entre os municípios e o Ministério da Saúde, coordenados por nós, e gestão do Ministro Serra. Um aumento de 10 vezes, em 2 anos. Considero esses tempos como uma atuação exitosa no conceito de atendimento e promoção de saúde, além do primeiro trabalho que fizemos em Diadema, reconhecido pelos setores sociais da cidade. Diminuímos a mortalidade infantil naquele município de 22.8 para 14.1, em quatro anos, e continuou em queda, entre muitos outros indicadores que atuamos. Em 2000 concorri e fui eleito vereador da cidade de São Paulo, tendo exercido 5 mandatos, por 20 anos, até não querer mais concorrer em 2020. Nesse período tive 97% de presença no Plenário e nas Comissões, fiz mais de 2000 discursos em Plenário e apresentei 419 Projetos de Lei, tendo aprovado 147 Leis. Minha atuação parlamentar foi nas áreas da Saúde, Meio Ambiente, Urbanismo e Zeladoria Urbana, com forte impacto na Cidade de São Paulo. Leis como dos ônibus elétricos, logística reversa municipal, aproveitamento de madeira de poda de árvores, água de reuso, programa de Psoríase, de Alzheimer, criação de vários Parques (Vilas Boas e Bexiga, entre outros), fiscalização de recursos públicos, e muitos outros surgiram de nosso Gabinete. Criamos a exitosa Conferência Municipal de Mudanças Climáticas que está em sua 23ª edição. Nesse período fui Secretário Municipal de Participação e Parcerias, do Verde e Meio Ambiente e de Mudanças Climáticas. Participei de inúmeros Conselhos e Movimentos Sociais, sempre com a visão de integrar meio ambiente, clima e saúde. Participei de várias COPs, representando a Cidade. E lutei, lutei muito, pelas Leis ambientais e climáticas da Cidade. Lutei demais e dei o exemplo pessoal pela moralidade pública. Sempre! Entre 2015 e 2020 me empenhei em defender as matas da Cidade, em particular nas margens das represas, que vinham sendo devastadas pela ação imobiliária do crime organizado (PCC). Produzi o dossiê “Devastação da Mata Atlântica de São Paulo”, e denunciei, combati, e conseguimos diminuir o crime ambiental praticado. Por isso tive 14 ameaças de vida, mas sobrevivi. Não me aposentei, mudei de trincheira, do parlamento para a sociedade civil. Hoje, a convite, coordeno a área de meio ambiente da AFPESP (Associação dos Funcionários Públicos do Estado de São Paulo) e a Comissão de Meio Ambiente, Clima e Saúde da APM (Associação Paulista de Medicina). São trabalhos pró-bônus de grande importância. Para mim, a prática da medicina é um misto de ciência, técnica e compromisso sócio ambiental. Gilberto Natalini- Médico e Ambientalista
O CASO DO CÃO ORELHA

O Brasil se mobilizou, sensibilizado e indignado, para protestar contra a morte cruel e covarde do cão Orelha, brutalmente espancado por adolescentes em Santa Catarina. Uma revolta compreensiva e oportuna. Mas se pensarmos bem, o ato covarde daqueles garotos é apenas a ponta visível de um enorme abcesso pútrido que lateja de dor na sociedade brasileira. Quantos animais domésticos são maltratados no Brasil, quantos animais silvestres são dizimados por aqui?? Um número incalculável, sem que as pessoas sequer tomem conhecimento. Nosso país tem mostrado sua cara violenta, cada vez mais. Uma violência que vem sendo aclimatada no cotidiano de nossas vidas. Manifesta-se com as mais de 100 mil pessoas morando nas ruas, em situação sub-humana degradante. Mostra a cara na guerra urbana do dia a dia com dezenas de milhares de pessoas assassinadas por armas de fogo nas ações do crime organizado ou vítimas das mortes por “motivos fúteis”. Vivemos uma epidemia de violência contra a mulher, resultando nos números indecentes de feminicídios, lesões físicas e psicológicas. Ou a violência sexual contra crianças, com números alarmantes. Nossa polícia despreparada, mal paga e muitas vezes corrompida mata e morre nas refregas diárias, pelas ruas da cidade. Sim! Somos um país violento. Muito violento. E cada vez mais. A tortura mortal do cão Orelha, nos mostra uma face horrenda de nossa juventude, que vez por outra tem o hobby de atear fogo em moradores de rua. Esses jovens são produto de seus lares, de suas escolas, de sua vida social. Os adultos não deixam por menos. A fama de brasileiro cordato e pacífico, está substituído pela imagem de uma parcela cada vez maior da população que pratica atos de ódio contra animais, e principalmente, contra seus semelhantes. É disso que se trata! Gilberto Natalini- Médico e Ambientalista