Gilberto Natalini SP

O Menino Travesso

Há um menino rondando por aí. Seu nome, El Niño ou “o menino”, em espanhol, foi definido por pescadores sul-americanos como uma referência ao menino Jesus, já que por volta do Natal, notavam o aquecimento incomum das águas do Pacífico. É justamente disso que se trata: o El Niño resulta do aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, alterando a circulação atmosférica e, consequentemente, os regimes de chuva e temperatura em diversos cantos do planeta. As agências que monitoram o clima já anunciaram a sua chegada. O Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) estima em cerca de 60% a chance de o fenômeno se formar a partir de meados de 2026. O cenário mais provável, hoje, é o de um El Niño de forte intensidade, ainda que sua oficialização só deva ocorrer ao longo dos próximos meses. No Brasil, os efeitos do El Niño costumam se dividir conforme a geografia: tendem a agravar a estiagem no Norte, no Nordeste e em partes do Centro-Oeste, ao mesmo tempo em que favorecem o excesso de chuvas no Sul. Tal situação gera um alerta para a população quanto aos riscos à saúde provenientes de potenciais ondas de calor ou eventos catastróficos. Mas há uma boa notícia para quem temia uma virada brusca: o menino ainda está engatinhando. Matéria da imprensa publicada em 2 de junho mostra que, embora o El Niño esteja em fase inicial de formação, ele ainda não deve influenciar de forma significativa o clima brasileiro neste mês. Junho marca a transição do outono para o inverno e mantém sua característica de mês mais seco em boa parte do país, com temperaturas em geral acima da média. Segundo os meteorologistas, os efeitos mais expressivos do fenômeno só tendem a aparecer mais adiante do ano. Por isso, vale levar o fenômeno a sério. Somado ao aquecimento global, se reforça a importância da prevenção, individual e coletiva. Conhecer o fenômeno, acompanhar as previsões e agir com antecedência é o que transforma a ameaça em desafio administrável. Na verdade, as condições ambientais e climáticas são cada vez mais agressivas. A degradação do meio ambiente, os fenômenos climáticos extremos, potencializado pelo El Nino, são desafiadores para a saúde, a qualidade de vida e a nossa sobrevivência no planeta. Gilberto Natalini- Médico e Ambientalista

CALOR EXTREMO CAUSANDO MORTE

Uma das piores consequências do aquecimento global, e das suas mudanças climáticas, é o calor extremo. Isso se podemos falar que há uma pior. Mas as ondas de calor, que vem se repetindo no mundo e por aqui, com mais frequência e mais intensidade, causam estragos muito maiores do que a desconfortável sensação térmica existente. O corpo humano é feito para funcionar dentro de uma variação limitada de temperatura, entre o limite do frio e do calor. Tanto o frio excessivo como o calor excessivo causam prejuízos aos tecidos do corpo humano (e dos outros seres vivos), que podem ser fatais. Acima de 35°C, nosso organismo começa a sentir os efeitos deletérios, que produzem o desconforto térmico, o desarranjo funcional dos órgãos, e até, nos casos extremos, a morte. Os termômetros têm registrado em várias ocasiões de cada ano, acontecendo em regiões cada vez mais abrangentes, valores que ultrapassam os 40/45°C, com sensação térmica que tem chegado a 50°C. Os resultados disso ainda são pouco conhecidos pelas pessoas. Mesmo os médicos e os cientistas ainda sabem pouco sobre isso e tratam do assunto. O fato é que o calor extremo tem sido o pior fenômeno climático, o que mais tem atingido, afetado e matado pessoas. Ao chegar acima de 35°C, a temperatura causa profundas alterações na homeostase corporal dos seres vivos, produzindo e desenvolvendo alterações fisiológicas no sistema cardiorrespiratório, nervoso, e em outros órgãos de nosso corpo. Assim, principalmente em crianças e idosos, causa perda de água, desidratação, alterações de pressão arterial, e de viscosidade do sangue. Em pessoas com doenças preexistentes, aumenta a incidência de infarto, AVC, insuficiência renal, e efeitos neurológicos, podendo chegar a um desfecho fatal. É preciso esclarecer e alertar as pessoas para que se previnam e se tratem dessas moléstias. Está provado cientificamente que durante as ondas severas de calor, o número de infartos e derrames aumentam bastante. E muitos óbitos que acontecem nesse período têm relação direta com as altas temperaturas. Assim, é preciso evitar a exposição ao sol nesses momentos, evitar praticar exercícios físicos nas horas críticas, hidratar-se muito, mesmo que não tenha sede, e também ter atenção redobrada para qualquer sintoma físico diferente. Os ambientes arejados e refrigerados são indicados no calor intenso, na medida das possibilidades. As sombras das árvores são providenciais. E em caso mais agudos, deve-se procurar um serviço de saúde. Os médicos e demais profissionais de saúde são agentes fundamentais no esclarecimento, e na mobilização da população para ações concretas na prevenção e combate às consequências do calor extremo. Todos esses cuidados individuais devem ser acompanhados de medidas coletivas para prevenir o aquecimento global. Cada pessoa tem um papel muito importante para ajudar a evitar uma trágica marcha do Planeta rumo a temperaturas mais altas, que estão alterando todo o equilíbrio do clima. Em próximos artigos abordaremos como cada um pode e deve ajudar. Gilberto Natalini- Médico e Ambientalista

Comissão dos Médicos pelo Meio Ambiente e pelo Clima marca presença em eventos

No decorrer dos últimos dias, o coordenador da Comissão dos Médicos pelo Meio Ambiente e pelo Clima da Associação Paulista de Medicina, Gilberto Natalini, marcou presença em eventos e reuniões representando a APM. O médico vem apresentando a pauta de trabalho do grupo, buscando o apoio de diferentes instituições e consolidando importantes parcerias. Na quinta-feira, 14 de maio, Natalini participou do 2º Summit de Integração de Cuidados de Saúde nos Países de Língua Portuguesa. O evento ocorreu no Rio de Janeiro, com amplo número de convidados, e teve a participação especial da Organização Mundial da Saúde (OMS). O coordenador da Comissão foi um dos panelistas da mesa que falou sobre envelhecimento, Saúde e meio ambiente. “Foi muito produtivo. Nós conseguimos dar o recado, dizendo da preocupação da Associação Paulista de Medicina sobre o impacto da degradação ambiental e das mudanças climáticas na Saúde humana, particularmente na Saúde dos idosos, então foi um evento muito bom.” ReuniãoJá na sexta-feira (15), Gilberto Natalini teve uma reunião com a superintendente do Hospital do Servidor Público Municipal de São Paulo, Elizabete Michelete. Na ocasião, eles puderam falar sobre as ações que vêm sendo desenvolvidas no hospital com foco em sustentabilidade e debateram de que maneira é possível alcançar os médicos por meio da mensagem que a Associação Paulista de Medicina busca passar em relação ao meio ambiente, ao clima e à Saúde. “Foi uma boa reunião e pudemos conversar por quase duas horas. A superintendente se prontificou a nos chamar para uma nova reunião com o corpo clínico do hospital, no sentido de irmos lá e fazermos as nossas colocações. Além disso, também se disponibilizou a vir aqui na APM para apresentar as atividades que estão sendo realizadas pelo Hospital do Servidor Municipal. Eu coloco muita esperança de que possamos fazer uma boa parceria”, demonstrou. Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)Além disso, na tarde da última segunda-feira, 18 de maio, a APM foi uma das apoiadoras da 1ª Conferência Estadual dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), evento organizado pela Comissão do Clima e Biodiversidade da OAB São Paulo (Ordem dos Advogados do Brasil) e que se consolida como um espaço de diálogo, construção coletiva e fortalecimento de políticas públicas de acordo com a Agenda 2030 da ONU. A conferência estadual é uma preparação para a Conferência Nacional dos ODS, que acontecerá em Brasília, entre os dias 29 de junho e 2 julho deste ano, com o objetivo de reunir representantes de diferentes movimentos e instituições sociais focados em construir um futuro mais sustentável, democrático e inclusivo. “A APM foi convidada a participar como parceira desta iniciativa de sustentabilidade. Cumprimos nossa obrigação divulgando o evento, contribuindo amplamente para a mobilização e o debate. Esta representa mais uma ação de parceria entre a Associação Paulista de Medicina e entidades da sociedade civil, como a OAB”, reforçou Natalini. Foto: Divulgação

SE TOCA, GENTE! O LIXO É NOSSO!

Nós consumimos cada vez mais para viver. A quantidade e a variedade dos produtos oferecidos para o deleite humano são cada vez maiores, e hoje atinge números alarmantes. São alimentos, bebidas, vestimentas, medicamentos, eletrodomésticos, veículos, moradias, aparelhos eletrônicos, embalagens, produtos de limpeza, de embelezamentos. São máquinas, drogas e todos os tipos de bens duráveis, ou não, necessários e supérfluos. A produção é gigantesca, e o consumo também. É claro que diante disso, os 8 bilhões de humanos, de forma desigual e injusta, consomem a produção de tudo que é retirado dos recursos naturais da Mãe Terra, ao ponto de a estar exaurindo a passos largos. Ao final disso sobram os resíduos desse consumo, que é popularmente conhecido como lixo. E aí começa outro capítulo. A maioria das pessoas no mundo, e principalmente no Brasil, pensa que o produto que sobra do seu consumo não é um problema seu. Produz o seu lixo, e ao colocá-lo em sua porta se desobriga de seu destino. E mais: muitas vezes descarta seus resíduos na via pública, em áreas desocupadas, em cursos d’água, ou no mar. Muito desse lixo é tóxico, metais pesados, produtos químicos, plásticos, restos orgânicos ou venenos mesmo. O destino correto para as sobras do consumo humano é um imenso desafio para a sociedade, nesses tempos de degradação ambiental e mudanças climáticas. Mas, sabemos, que boa parte do nosso lixo de cada dia, vai parar no seio da natureza, contaminando o solo a água e o ar, voltando como um bumerangue contra a saúde e a vida das pessoas e demais seres vivos. No Brasil, cerca da metade dos municípios ainda convivem com lixões a céu aberto. Boa parte dos resíduos se infiltram na terra, contaminam os rios e lagos, se evaporam como gases tóxicos, ou vão produzir ilhas artificiais de lixo no mar. Temos aqui, a lei 12305 de 2010, que não é cumprida até hoje. A cidade de São Paulo, que produz 18 mil toneladas de lixo por dia e mais 8 mil toneladas de resíduos da construção civil, recicla menos de 5% disso e já não há mais espaço no município para ampliar seus aterros. O Rio de Janeiro quase não faz reciclagem. Imaginem o resto do Brasil. É catastrófico. Diante dessa realidade assustadora temos que começar do começo. Cada um de nós tem que aprender que o nosso lixo individual é de nossa responsabilidade até o destino final. Reduzir a produção de lixo, reciclar, reaproveitar, é uma tarefa que começa dentro da nossa casa e se estende para a rua, o bairro, a cidade, a sociedade e os governos. O que não pode mesmo é continuar a transformar o planeta num lixão. Isso não!!! Gilberto Natalini- Médico e Ambientalista

CIDADE DE BELÉM: MAIS UM SINAL DO CLIMA

Há alguns dias, a cidade de Belém do Pará foi vítima de chuva de 150ml, em 24 horas, a metade do previsto para o mês de abril inteiro. Ruas alagadas, pessoas desalojadas, doenças transmissíveis, prejuízos econômicos e ambientais, foram o resultado. Mas, na retrospectiva, tivemos as catástrofes de Petrópolis (2000 mortos), de Angra dos Reis, do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina, de São Sebastião, do Rio de janeiro, de Salvador e tantos outros lugares do país. Somam-se a isso as queimadas descontroladas no Cerrado, no Pantanal e na Amazônia, destruindo milhares de hectares de vegetação, quando a fumaça poluída e tóxica vinda de lá transformou em São Paulo o dia em noite, pela fuligem. As estiagens prolongadas que têm acontecido no Brasil, cada vez mais frequentes, provocaram as secas do Rio Negro e Amazonas, do Pantanal, entre outras. As Mudanças Climáticas avançam em todo o planeta, e aqui no Brasil, seus fenômenos extremos se repetem em todos os cantos. Embora tenha havido inúmeras iniciativas globais para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, essas emissões ainda estão em crescimento. A humanidade está perdendo a batalha pelo clima. A velocidade das mudanças climáticas tem sido muito maior que a capacidade dos humanos de prevenir o fenômeno. A situação é grave e preocupante, e agora temos o acontecimento das guerras que pioram a transição energética no mundo. A humanidade tem que cair na real. Senão… Gilberto Natalini- Médico e Ambientalista

Educação ambiental: uma política transformadora

Confira o artigo intitulado ‘Educação ambiental: uma política transformadora’, publicado originalmente no site da AFPESP, de Gilberto Natalini, coordenador de Meio Ambiente da AFPESP, médico gastrocirurgião e ambientalista, e de Ana Maria Villela Alvarez Martinez, coordenadora de Educação e Cultura e ocupante da cadeira nº 1 de Artes da Academia de Letras, Ciências e Artes (ALCA) da AFPESP. Confira o artigo clicando aqui.

Mulheres: o protagonismo é agora

Confira o artigo intitulado ‘Mulheres: o protagonismo é agora’, publicado originalmente no site da AFPESP, de Gilberto Natalini, coordenador de Meio Ambiente da AFPESP, médico gastrocirurgião e ambientalista. Confira o artigo clicando aqui.

“AS MAGIAS DA SUSTENTABILIDADE”

Lançamos há pouco o livro “As Magias da Sustentabilidade”, com 23 coautores, onde escrevi o capítulo 2. É uma publicação singela, que relata as nossas diversas vivencias sobre o assunto. Hoje, a palavra sustentabilidade está na moda, porém, mais que uma palavra, ela deve se generalizar como prática e estilo de vida. O fato grave e real é que a relação dos humanos com a natureza está cada vez pior. A nossa capacidade de explorar e destruir os recursos naturais aumentou exponencialmente com as descobertas científicas e tecnológicas, chegando a um limite perigoso. A Mãe Terra não consegue mais recompor o que a humanidade retira do solo, da água e do ar, não só de minerais como também de biodiversidade. A exaustão do planeta é tamanha que no mês de agosto já extraímos tudo o que a Terra poderia nos dar no ano. Daí até o final de 12 meses é só devastação. A situação é muito grave e preocupante, e para piorar, grande parte dos resíduos do enorme consumo humano, são devolvidos para o meio ambiente de forma irregular, contaminando o solo, as águas e o ar. É isso que se chama de insustentabilidade. É claro, que muitas iniciativas vêm sendo tomadas ao redor do mundo no sentido de evitar a contaminação ambiental, de racionalizar o uso da água e de limpar o ar. No caso específico da emissão dos gases de efeito estufa, que provocam o aquecimento do planeta e as mudanças climáticas, também há muitas iniciativas para buscar energias limpas e evitar o petróleo. Porém, todas essas medidas de preservação, de mitigação e adaptação às mudanças climáticas ainda são muito aquém das necessidades. Por isso, precisamos sim da magia, na transformação dos modos de produção, de consumo, de manejo dos resíduos, para transformar a consciência e a ação humana em suas relações com “a nossa casa comum”. Aí está a magia da sustentabilidade. Gilberto Natalini- Médico e Ambientalista

SÃO PAULO E O ORÇAMENTO CLIMÁTICO

A Cidade de São Paulo sempre inovando. Agora, foi criado o chamado Orçamento Climático, e esse ano está consolidado em 28 bilhões de reais. Esse orçamento é distribuído em diversas Secretarias Municipais e diz respeito aos gastos com ações de mitigação e adaptação nos fenômenos das mudanças climáticas. Assim, estão previstos para 2026 como alguns exemplos: drenagem pluvial e áreas de riscos geológicos – 10 bilhões de reais; manutenção e implantação de parques, arborização urbana – 5 bilhões; eletrificação da frota de ônibus, corredores de transporte público e modernização semafórica – 39 bilhões; regularização e urbanização de favelas, programa mananciais – 16 bilhões de reais. O orçamento total da Cidade é de 130 bilhões de reais. A destinação de 25% disso para ações climáticas é uma inovação positiva no caminho de uma São Paulo mais resiliente e mais sustentável. É claro que ainda não é suficiente diante de todo o enorme desafio que vulnerabilidade climática exige. E também é preciso seguir com detalhes a execução desses recursos carimbados para as políticas ambientais. Mas, sem dúvida, a metrópole paulistana sai na frente mais uma vez. A Lei Municipal das Mudanças Climáticas de 2009, foi pioneira no Brasil, assim como a Lei de Reuso da Água e a eletrificação da frota urbana de ônibus, entre muitas outras legislações. Quase 80% da população do mundo vive nas cidades. Assim, esses aglomerados de pessoas, as vezes gigantescos, são os mais vulneráveis diante dos eventos climáticos extremos, como chuvas violentas, calor intenso, ciclones e tornados, e escassez hídrica. Em várias partes do globo, vivemos essas agressões da natureza. Aqui no Brasil temos os exemplos do Rio Grande do Sul, da Serra Fluminense, do Litoral Norte Paulista, e agora, várias cidades em Minas Gerais. Existem cerca de 10 milhões de brasileiros morando em áreas de risco, sujeitos a deslizamento e enchentes. No ano passado muitos milhares de pessoas morreram em consequência de ondas de calor, que desencadeiam doenças como AVC e infarto do miocárdio. No Paraná, uma cidade inteira foi destruída por um tornado. São Paulo tem muitas áreas de vulnerabilidade social, ambiental e climática. E tem sido realizadas várias iniciativas para diminuir esse risco. Mas é preciso dar mais velocidade nessas ações, pois o tempo não para. O Orçamento Climático é uma boa iniciativa para avançarmos. Gilberto Natalini- Médico e Ambientalista

GERAÇÃO AR CONDICIONADO

O aquecimento global é uma realidade cientifica, social, econômica e ambiental. Embora ainda haja os que negam, duvidam, e desdenhem, por desconhecimento, por descrença ou por má fé, os fatos mostram que o planeta vem se aquecendo e provocando as mudanças climáticas e seus fenômenos extremos. Um dos fenômenos mais sentidos por todos são as ondas de calor, cada vez mais intensas. Há épocas que as temperaturas ficam insuportáveis, chegando a níveis incompatíveis com a saúde e com a vida. Isso vem acontecendo em todas as partes do mundo de forma repetida. A reação dos governos e das pessoas tem sido insuficiente para mitigar e prevenir o evento. A saída para o grave incomodo tem sido “a mais fácil e paliativa”. A climatização dos ambientes internos passou a ser uma premissa. O ar condicionado transformou-se num fetiche humano. Mais um! Sabemos que a climatização dos espaços internos não é nova. Nos carros foi quase uma exigência de consumo, e isso já faz tempo. Nas residências e imóveis comerciais também foi ganhando escala. Mas nos tempos atuais, o ar condicionado tornou-se um refúgio imperativo para a proteção das pessoas contra o calor cada vez mais severo. Aqui no Brasil e em outras partes do mundo, temperaturas de 40/45 graus Celsius tem sido uma constante observada. No Rio de Janeiro, há pouco tempo, a sensação térmica chegou a 49ºC. Isso é causa certa de adoecimento e morte. Segundo dados citados pelo climatologista Carlos Nobre, o calor extremo é a maior causa de morte nas mudanças climáticas. Os cálculos são imprecisos, pois a medicina ainda não dominou o assunto, a ponto de diagnosticar todos os casos. Daí a subnotificação. A busca por energia limpa e a substituição dos combustíveis fósseis, causa principal emissão dos gases de efeito estufa, andam no ritmo muito aquém do necessário. Por isso o planeta continua no caminho do aquecimento. As instituições e as pessoas buscam a climatização dos ambientes como compensação para suportar as temperaturas. É comum vermos nas ruas, em dias de grande calor, as pessoas entrando em comércios, escritórios e repartições que têm ar condicionado, somente para proteger-se do calor extremo. A produção e a instalação dos condicionadores de ar têm aumentado vertiginosamente. O número de residências e outros imóveis que vem instalando esses aparelhos cresceu muito nos últimos tempos. Isso exige dinheiro para comprar, instalar e manter o sistema de refrigeração. Soma-se a isso o aumento significativo do gasto e do custo da energia elétrica necessária. No Brasil somente 20% da população tem acesso a aparelhos de ar condicionado. Parte dos “sem ar” viram-se com ventiladores mesmo, e parte significativa das pessoas nem isso possui. É preciso explicitar as contraindicações da climatização do ar: além dos custos da implantação e da sobrecarga no gasto de eletricidade, temos também os aspectos da saúde, pela pouca umidade desse ar, o choque térmico, e a contaminação por aparelhos malconservados. Assim, num resumo rápido, temos perdido a batalha contra as mudanças climáticas. O calor extremo tem sido o mais nocivo dos fenômenos climáticos: A saída para isso tem sido individual buscando a climatização de cada imóvel; as consequências são o gasto considerável com a instalação, a manutenção e a energia elétrica; só pequena parte da população do Brasil tem condições de adquirir o aparelho; temos ainda os agravos da saúde produzidos pelo ar condicionado. E por fim é mais uma solução paliativa para o problema mais grave do aquecimento global que continua relevado por grande parte da humanidade. Gilberto Natalini- Médico e Ambientalista