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Gilberto Natalini SP

SALVEMOS A GUARAPIRANGA

Água nossa de todo dia. Ninguém vive sem água! Vira graveto!! A região metropolitana de São Paulo tem quase 22 milhões de habitantes, sendo 12 milhões na capital. Cerca de 4 milhões são abastecidos pela água da Represa de Guarapiranga (garça vermelha), que fica na Zona Sul da Cidade. Esse grande reservatório é formado por 12 córregos e centenas de nascentes que brotam do que ainda existe de mata atlântica remanescente na região. O espelho d’água da Guarapiranga que tem 27 Km² de extensão, e sua bacia hidrográfica possui 638 Km². A represa tem 118 anos e foi inaugurada em 1908. É cercada pelas Subprefeituras de Capela do Socorro, M’Boi Mirim e Parelheiros. No decorrer do tempo foi sendo ocupada por sítios e pequenas fazendas, depois por imobiliárias clandestinas, que lotearam bairros, até hoje ilegais, ocupações por movimentos populares de moradia, invasões formiguinhas e por último uma devastação feita pelo crime organizado que derrubou 1,5 milhão de árvores e assoreou 1000 nascentes. Assim, hoje a região do reservatório é densamente povoada, até as margens lindeiras ao espelho d’água. São cerca de 1 milhão de habitantes na bacia hidrográfica da Guarapiranga, desses 70% são da Cidade de São Paulo. São 207 mil desses morando em favelas. Esse imenso espelho d’água, vem morrendo aos poucos no decorrer do tempo, principalmente nos últimos 30 anos. A causa para esse “assassinato” é multifatorial, e tem se agravado a cada dia. A ocupação desordenada e predatória, seja qual for, é a principal causa. A imensa pressão social por moradia, somada à fraqueza e desleixo dos poderes públicos fizeram das áreas de mananciais grandes conglomerados de bairros, que destruíram a mata nativa, assorearam nascentes e trouxeram grandes massas de poluentes que feriram mortalmente o corpo da Represa Guarapiranga, a caixa d’água da Região Sul de São Paulo. Cerca de 50% do esgoto coletado de 1 milhão de moradores lindeiros à represa é devolvido ao espelho d’água, sem nenhum tipo de tratamento. Há também a poluição difusa, levada pelas chuvas e ventos de milhares de ruas e calçadas que circundam a área. E ainda temos o lixo doméstico despejado nos córregos e nas margens, que se depositam dentro do reservatório. Somada à toda essa agressão, temos ainda à alteração do regime de chuvas, que em período de longas estiagens, produz enorme redução do volume de água reservado. Por tudo isso, a situação da Represa de Guarapiranga é muito grave, havendo um grande risco de sua inviabilização. Pouca coisa vem sendo feita pelos governos e pela empresa que retira a água e deveria tratar os esgotos despejados lá. A eutrofização e o assoreamento da represa são assustadores. O tratamento dessa água se torna inviável. A continuar assim, Guarapiranga caminha para a morte, deixando de ser um manancial para 4 milhões de pessoas que ficarão sem água em suas torneiras, pois não há outra fonte que substitua Guarapiranga. Diante dessa trágica situação, nós estamos propondo uma corrente de lideranças e entidades que estejam dispostas a cobrar soluções urgentes para tentar salvar a Represa de Guarapiranga.  Convido você para participar de reunião de organização do movimento “Salvemos a Guarapiranga”. Será no dia 23 de setembro de 2026, às 16 horas, no Sindicato dos Engenheiros, Rua Genebra, número 25. Compareça! Gilberto Natalini- Médico e Ambientalista

O TRÂNSITO E O HOME OFFICE

A cidade de São Paulo tem cerca de 9 milhões de veículos em sua frota urbana. Só motos são cerca de 1,3 milhões. Os ônibus urbanos somam cerca de 14 mil, mas chegam a 50 mil veículos se contarmos todos os tipos. Se toda essa imensa frota sair na rua de uma vez a cidade enfarta. As ruas entopem e pára tudo. Podemos dizer que não há vias suficientes para caber tantos veículos. Sabemos que parte dessa frota sempre fica parada e vai se revezando, mas mesmo assim, andar de carro em São Paulo vai ficando cada vez mais difícil. Mas, temos observado um fenômeno interessante. Nas 2ªs, quartas e sextas feiras, parece que tem menos carros nas ruas. O trânsito tem aliviado, flui mais fácil, e algumas vias ficam até semivazias. O que mesmo está acontecendo??? Pelo volume da frota, o rodízio de placas não está sendo mais suficiente para aliviar o transito, embora sem ele o caos já tivesse sido anterior. Na verdade, o advento do home office, o trabalho em casa, iniciado no tempo da pandemia da Covid-19, é o grande responsável pela diminuição do trânsito nos dias referidos. Se observarmos bem, nas 3ªs e 5ªs feiras, as ruas e avenidas de São Paulo, voltam a se locupletar de carros, tornando o trânsito infernal. Segundo consta, são justamente os dias que as pessoas saem de casa para o trabalho presencial. Nos sábados e até nos domingos, o número de veículos nas ruas é cada vez maior. Justamente nos dias que as pessoas saem para fazer compras e passear. O impacto dos dias de home office na queda de congestionamentos é um fato real. Mas, se formos pegar o Metrô às 6 horas da manhã, na estação Alto da Boa Vista, em Santo Amaro, as vezes temos que esperar de 3 a 5 trens para conseguir entrar, tal o abarrotamento de gente dentro dos vagões. O mesmo acontece com os ônibus que passam superlotados. Quem vai ali são os trabalhadores manuais, que não podem trabalhar à distância, pelas características de seus serviços. Os urbanistas, os ambientalistas, as pessoas de bom senso sempre propuseram o desenvolvimento regional da Cidade, para que as pessoas pudessem trabalhar no próprio bairro, evitando, às vezes, viagens de 2 horas de ida mais a volta do emprego. Mas a força do mercado e a falta e a falta de políticas públicas suficientes, nunca avançaram nesse sentido. Hoje, a tecnologia, a sociedade virtual, e a produção pela internet, permitem o home office, que por tabela está aliviando o fatídico entupimento do trânsito de São Paulo. Pelo menos por enquanto. Gilberto Natalini- Médico e Ambientalista

O MEIO AMBIENTE E O CLIMA EXISTEM?

Está rolando as eleições majoritárias e parlamentares no Brasil. Para Presidência da República temos inúmeros candidatos, mas pela polarização infeliz que o país vive, somente duas candidaturas parecem se impor. São os “ ícones da polarização”. De um lado, Lula do PT, e do outro Flavio do clã Bolsonaro. Mas, acompanhando as falas de todos os pretendentes, inclusive dos dois polarizados preferidos, não vemos uma só palavra, umazinha sequer, sobre sustentabilidade, clima e meio ambiente. Nenhuma análise, avaliação ou referência ao que mais ameaça a humanidade e os brasileiros; os fenômenos extremos das mudanças climáticas. Para esses candidatos, parece que esse problema não existe, sendo que ele é o problema dentro dos problemas. É certo que a situação econômica do Brasil é catastrófica, com 90 milhões de endividados, falências se multiplicando, crescimento econômico ameaçado, juros escorchantes e uma dívida externa que já passa de 10 trilhões de reais. É certo que a situação social aqui é vergonhosa. Somos campeões, ou vice, de desigualdade social e campeões mundiais de feminicídios. Disputamos o campeonato mundial de mortes por assassinatos e outras tantas por acidentes de trânsito. É certo que o Brasil está no ranking mundial dos países mais corruptos. É certo que os dois principais candidatos visitaram as cadeias e tem, cada um, mais de 50% da rejeição popular. Mas com todo esse quadro sombrio, sobrepõe-se as imensas ameaças, já sendo concretizados, das catástrofes climáticas e da degradação ambiental. Assim, vemos todos os dias, chuvas destrutivas e ventos uivantes no sul, estiagens terríveis no norte e centro-sudeste e calor extremo aqui e acolá. Vemos também uma agricultura insustentável, o ar das cidades poluído, a escassez hídrica nas metrópoles, a Amazônia e Mata Atlântica sempre ameaçadas. Vemos despejarem 50% do esgoto humano nos cursos d’água, a existência de cerca de 1800 cidades com lixões, e a “farra do boi” dos plásticos no solo e nos oceanos. Portanto, qualquer candidatura presidencial ou parlamentar decente, deveria abordar, além dos problemas políticos, econômicos e morais que são imensos, a questão da sustentabilidade, o clima e o meio ambiente. E isso nós não temos visto por aqui. Gilberto Natalini- Médico e Ambientalista

CLIMA: CADA VEZ PIOR

Cada vez mais o negacionismo climático perde espaço. Diante das evidências gritantes das mudanças climáticas, os ignorantes e aventureiros da “negação” vão diminuindo e desaparecendo. O bom senso, apoiado nas evidências científicas e na realidade da vida, que indica a causa humana do aquecimento global é hoje quase consensual. Mas, o que ainda prevalece, em grande parte, é a inércia humana. Embora haja mundo afora, muita gente falando, tomando medidas e combatendo os fenômenos climáticos extremos, ainda há uma grande parte da humanidade que se mantém numa imobilidade perigosa, quase suicida. Assim, vemos os governos, o mundo privado, as entidades sociais e as pessoas, numa atitude de observação, quase omissa, diante dos estragos que o clima vem fazendo mundo afora. Se exasperam e se apavoram quando as coisas acontecem em seu redor. Sabemos, por pesquisas, que mais de 90% das pessoas já sabem das mudanças climáticas. Mas, só cerca de 30% delas se dispõe a tomar medidas individuais e coletivas para prevenir e combater tais fenômenos. As medidas tomadas por governos, grupos econômicos, organizações da sociedade civil e pessoas, individualmente, são muitas ao redor do mundo. Mas parece que sua intensidade e velocidade são bem menores do que a rapidez da evolução e tamanho das mudanças climáticas. Dessa forma, podemos afirmar que estamos perdendo essa guerra. Temos que fortalecer e acelerar o front de batalha. Há também um fator decisivo para avançarmos na mitigação e adaptação climática: caminhar rapidamente no sentido da transição energética. Nesse campo há o fator indesejável e perigoso do lobby do petróleo. Os países e empresas produtoras de petróleo fazem tudo para retardar a velocidade do desenvolvimento das energias renováveis. O mundo se desmanchando em cheias violentas, secas prolongadas, calor extremo, queimadas devastadoras, stress hídrico, frios extemporâneos, degelo, ventanias catastróficas, e os petro ricos, fazendo todo o possível para garantir seus “negócios”, barrando o esforço científico e tecnológico para sairmos dessa enrascada. Cabe a cada um de nós fazer a sua parte na direção correta. E cobrar as autoridades e as lideranças para saírem da zona de conforto e agirem. O tempo de esperar já passou! Gilberto Natalini- Médico e Ambientalista

O CLIMA E A SAÚDE GLOBAL

Faz pelo menos meio século que as perturbações antrópicas (sempre perseguindo incansavelmente o desenvolvimento material) sobre o planeta que nos acolhe geram muito desequilíbrio ecológico; e provocam rupturas; e alteram o funcionamento dos ecossistemas naturais. Dessa perspectiva, pesa reconhecer, nós, os modernos, temos mantido uma relação tão crítica com a biosfera que, seguindo William Ripple e colegas, “grande parte da estrutura da vida na Terra está em perigo”. Seja como for, pela primeira vez na história, quando se evoca o aquecimento global, se quer anunciar, de fato, a ocorrência de um sintomático desequilíbrio com consequências irreversíveis. Ocorre que, combinado a isso, com a nossa Pegada Ecológica (Human Footprint) colocamos o mundo natural na rota do caos ambiental e caos climático. Gradativamente, vendo a questão assim, evidenciam-se os benefícios econômicos, mas ocultam-se os prejuízos ambientais, cada vez mais desfavoráveis à vida. No horizonte crítico, firma-se o padrão habitual, quer dizer, a lógica dominante que acelera os processos predatórios, sem se importar com os danos da interferência antrópica no meio ambiente. Ou mesmo se haverá ecocídio generalizado. Ou ainda se os ecossistemas serão fragmentados; ou, em última análise, a se o clima em transe nos trará para perto dos eventos extremos. No enredo dessa crise atual – especialmente a ecológica e a do clima – o planeta, como um todo, tem sido levado ao colapso pelas forças dominantes que priorizam o lucro, por isso, em larga medida, estimulam o consumo de massa, e fazem uso inadequado dos limitados recursos do mundo natural. Em meio a essas ocorrências, com o pendor de desestabilizar, cabe perguntar: como começou a crise mais perigosa desses tempos modernos que compromete a boa qualidade de vida das pessoas? Como resposta, Rita Carelli escreve pontualmente aquilo que Ailton Krenak lhe disse em conversa reservada: “a crise ambiental que estamos enfrentando teve origem no dia em que começamos a dizer às crianças que a terra é suja”. Tomando parte dessa narrativa e procurando ainda ampliar o horizonte da resposta, há, aqui, um fato inescapável: para cada novo impacto humano no Sistema Terrestre decorrente da expansão da produção material, pior para a regulação climática e as condições químicas para a reprodução do sistema vida. Aliás, num cenário assim, distópico, em que as temperaturas globais estão cada vez mais quentes, tanto mais a sociedade humana, cedo ou tarde, se aproxima de novas e perigosas enfermidades. Portanto, de qualquer maneira, num cenário em que ainda (nós, sociedade civil) debatemos o conceito de desenvolvimento sustentável, o aquecimento da atmosfera bate seguidos recordes (a temperatura média global já é cerca de 1,37°C acima dos níveis pré-industriais). Nesse enquadramento, podemos dizer abertamente que a crise climática, pela dimensão que alcança, jamais poderá ser resolvida dentro do sistema capitalista que se alimenta da crise e de crises. Tampouco a crise do clima. Essas crises, para reiterar o óbvio, agora sabemos, custam vidas. Donde mortes e colapso (do meio ambiente, do clima, da ecologia profunda) se intercalam. Assim, vejamos mais um ponto importante: em relatório organizado em conjunto pela University College London e a Organização Mundial da Saúde, lê-se que “milhões de pessoas morrem todos os anos devido à inação diante do aquecimento global”. Sem novidades, até o fim do século, em 2100, a segurança entre o planeta e as pessoas, aponta em relatório a ONU, tende a permanecer na berlinda, uma vez que o aquecimento global pode matar cerca de 40 milhões de pessoas. Seja como for, diante do que já aconteceu, vale lembrar que, apenas entre 2012 e 2021, a média de óbitos no mundo relacionada às altas temperaturas globais foi de 546 mil por ano. Em todo o planeta, em apenas três décadas, quase 800 mil pessoas morreram em decorrência de eventos extremos. Conta simples de fazer, de acordo com o Índice de Risco Climático, da ONG Germanwatch, foram mais de 9.400 desastres climáticos impactando a saúde global. No Brasil, a cada ano, são registradas 6 mil mortes por doenças respiratórias relacionadas a temperaturas extremas, calor ou frio. Assim sendo, vamos insistir: o agravamento das mudanças climáticas, a inaceitável erosão de biodiversidade, a destruição excessiva de vegetação nativa, o mau uso da terra, a pilhagem de recursos naturais e o alto gasto energético e, por último, mas não por fim, os insuportáveis níveis de poluição do ar, do solo (estima-se que 52% das terras agrícolas no mundo são afetadas pela poluição), das águas etc, deixam, como é fácil supor, o sistema vida estruturalmente incompatível diante do desajuste planetário. Nesses termos, é bom dizer que a Terra está enfrentando abusos ecológico-ambientais porque está esquentando mais rápido do que era previsto (enfrentando assim o chamado estresse térmico). Desde 1850, o mundo já avançou ao menos 1,1°C na média da temperatura global. Agora, colhemos os resultados amargos: 70% da população mundial está sujeita a pelo menos três meses de calor severo por ano. Enquanto os eventos extremos assustam pela dimensão que alcançam, a Europa, nesse momento em que escrevemos essas linhas, arde com temperaturas acima de 45 graus Celsius. Em particular, mais ocorrências de eventos climáticos extremos significa mais vidas em risco. Assim, notar-se-á que estamos diante de uma enfermidade planetária que polariza todas as atenções. Em todo o caso, não surpreende que, quase uma década atrás, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) tenha anunciado uma verdade incômoda: “não estamos no caminho para cumprir metas de mudanças climáticas e conter aumentos de temperatura”. Desse fundo histórico, vê-se que ainda hoje sequer conseguimos encontrar uma resposta definitiva para as nossas ações contrárias ao bom desempenho da nossa Casa Comum, isto é, o nosso planeta, sempre hostilizado pela sobrecarga da economia-mundo. Objetivamente, sem as mínimas condições de bancar o equilíbrio do sistema climático e planetário, e longe ainda da proposta emancipatória e transformadora representada na experiência latino-americana do bem-viver, nossa civilização balança. E balança notadamente por conta de transformações que, a rigor, se convertem em ameaças trazidas pela concepção de modernidade capitalista dominante, baseada num sistema de acumulação (o oxigênio do capitalismo). Enquanto esse sistema – e essa concepção –

AR SECO, PULMÕES SECOS, VIDAS SECAS!

Ninguém vive sem ar! Alguns minutos sem respirar podem causar a morte de uma pessoa. O oxigênio, que compõe cerca 21% da atmosfera, é um elemento da natureza fundamental à vida. É claro que o ar é composto de muitos outros gases. Também contém elementos  em suspensão, como pólen, micro-organismos e material particulado, alguns deles muito nocivos à saúde humana, como a fuligem e os compostos de enxofre, geralmente presentes na poluição das grandes cidades. Mas há um componente do ar do qual pouco se fala e que desempenha um papel estratégico na respiração humana: o vapor d’água. Sabemos que, para ser saudável, o ar que respiramos deve apresentar umidade relativa em torno de 60% ou mais. O vapor d’água desempenha um papel fundamental na fisiologia dos pulmões, umidificando e hidratando os brônquios, bronquíolos e alvéolos, além de ajudar a remover impurezas inaladas. É aí que mora o perigo! Nos períodos de pouca chuva, especialmente durante o inverno, o ar fica muito seco e a sua humidade cai bem abaixo dos níveis ideais para o sistema respiratório. Com as grandes estiagens provocadas pela crise climática, a umidade do ar pode atingir índices inferiores a 30%. Isso compromete o funcionamento dos pulmões, além de provocar irritação nas mucosas dos olhos, do nariz e da boca. Essa situação se agrava com a intensa poluição do ar nas grandes cidades e com a fumaça das queimadas florestais. O resultado dessa combinação nefasta é o aumento exponencial das doenças respiratórias, como as bronquites e as pneumonias. Por isso, durante os invernos secos e poluídos, especialmente nas grandes cidades, os serviços de saúde ficam abarrotados de pacientes, em grande parte devido à poluição gerada pela frota de veículos. As principais vítimas dessa situação são as crianças e idosos, mas os adultos também sofrem. Com as mudanças climáticas, as estiagens prolongadas tornaram-se mais frequentes. Ao mesmo tempo, as queimadas se repetem, liberando grandes quantidades de fuligem na atmosfera. É a receita perfeita para o aumento das doenças respiratórias, muitas vezes agravadas pela presença de micro-organismos patogênicos que causam as infecções pulmonares. A solução para esse problema não é simples. Ela exige desde cuidados pessoais e mudanças de comportamento até políticas públicas de longo alcance. Mas isso deixaremos para um próximo artigo. Gilberto Natalini- Médico e Ambientalista

QUE FRIO É ESSE?

Muitas pessoas falam: que aquecimento global é esse com um frio congelante? Realmente a temperatura baixou demais por aqui. Todos estão tirando seus casacos do armário. Aqueles que os tem!!! Mas o aquecimento global que provoca as mudanças climáticas é assim mesmo. Além de chuvas violentas, das estiagens prolongadas, das ventanias assustadoras, do calor extremo, também temos os frios congelantes e as nevascas. Como o próprio nome diz, são mudanças bruscas e imprevisíveis no comportamento do clima ao redor do Planeta. Sem uma lógica ou uma previsibilidade. O que é certo, comprovado e verdadeiro, é que a média temperatura da Terra vem subindo gradativamente numa intensidade mais rápida do que foi previsto. Portanto, sentir o frio intenso, assim como o calor abrasador está dentro do escopo do aquecimento global. O fato preocupante é que as inúmeras iniciativas tomadas pela humanidade para prevenir e combater a desregulação do clima não tem a velocidade e a intensidade necessária para conter o fenômeno. O uso do combustível fóssil (petróleo) para produção de energia continua a toda. As emissões de gases de efeito estufa (GEE) aumentam ano a ano. Os desmatamentos não foram controlados nos países que tem florestas. A transição energética tropeça em obstáculos técnicos, mas principalmente em entraves econômicos, pela pressão dos produtores de petróleo. Aqui um frio arrepiante, na Europa um calor implacável matando milhares de pessoas e queimando vários países. A inercia dos governos, das empresas, das instituições e das pessoas, acomodados em sua rotina, ou “zona de conforto” é maior do que a ação decisiva para frear o aquecimento global. Enquanto isso, o clima, nervoso, incontrolável e ameaçador, vai destruindo e matando pelo mundo a fora. A grande maioria das pessoas já sabe da ameaça climática, mas poucos se dispõem a agir. Trata-se, então, de equiparar a intenção e o gesto. Gilberto Natalini- Médico e Ambientalista

O FRIO DAQUI E O CALOR DE LÁ

Está fazendo um frio mais intenso por aqui, que começou mesmo antes do inverno, principalmente no sul sudeste do Brasil, com temperaturas às vezes  abaixo dos 10°C. E a previsão é de chegada de nova frente fria, que vai derrubar ainda mais a temperatura. Fazia tempo que não víamos isso. Por outro lado, nos EUA e na Europa, uma onda de calor intenso está adoecendo e matando gente. Na França, temos notícia da morte de 1.300 pessoas diretamente relacionada ao calor extremo. O Norte da Europa também se aqueceu bastante. A Ciência afirma, e nós sabemos, que essas variações atípicas do tempo se devem as mudanças climáticas, provocadas pelo aquecimento global. As previsões futuras não são animadoras. Os fenômenos climáticos extremos caracterizados pelo calor, ondas de frio intenso, chuvas violentas e destruidores, secas prolongadas que devastam os cursos d’água, a agricultura, a segurança hídrica, e também ventos de alta velocidade, entre outros eventos. Esse é o “novo normal” do clima. O mais desesperador, é que, apesar do alerta, dos modelos de mitigação e adaptação que o mundo vem tomando, as emissões de gases de efeito estufa, principalmente pelo CO2, aumentam a cada ano. A transição energética, tão almejada e necessária, não tem conseguido diminuir a queima de combustíveis fósseis (petróleo, gás e carvão) pelo mundo afora. A velocidade das medidas praticadas pela humanidade para a precaução e prevenção das mudanças climáticas têm sido mais lenta do que o avanço da temperatura média do Planeta. Esse é o fato! Diante da ameaça concreta de degradação ambiental e colapso climático, cabe a cada um de nós tomarmos nossas medidas individuais, e fazermos a devida pressão na sociedade e nos governos para avançarmos na transição energética, na proteção e recuperação do meio ambiente, em nosso território e em todo mundo Portanto, passar da a consciência para a ação concreta é uma tarefa de cada um, em nome da preservação da vida. Gilberto Natalini- Médico e Ambientalista

O Menino Travesso

Há um menino rondando por aí. Seu nome, El Niño ou “o menino”, em espanhol, foi definido por pescadores sul-americanos como uma referência ao menino Jesus, já que por volta do Natal, notavam o aquecimento incomum das águas do Pacífico. É justamente disso que se trata: o El Niño resulta do aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, alterando a circulação atmosférica e, consequentemente, os regimes de chuva e temperatura em diversos cantos do planeta. As agências que monitoram o clima já anunciaram a sua chegada. O Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) estima em cerca de 60% a chance de o fenômeno se formar a partir de meados de 2026. O cenário mais provável, hoje, é o de um El Niño de forte intensidade, ainda que sua oficialização só deva ocorrer ao longo dos próximos meses. No Brasil, os efeitos do El Niño costumam se dividir conforme a geografia: tendem a agravar a estiagem no Norte, no Nordeste e em partes do Centro-Oeste, ao mesmo tempo em que favorecem o excesso de chuvas no Sul. Tal situação gera um alerta para a população quanto aos riscos à saúde provenientes de potenciais ondas de calor ou eventos catastróficos. Mas há uma boa notícia para quem temia uma virada brusca: o menino ainda está engatinhando. Matéria da imprensa publicada em 2 de junho mostra que, embora o El Niño esteja em fase inicial de formação, ele ainda não deve influenciar de forma significativa o clima brasileiro neste mês. Junho marca a transição do outono para o inverno e mantém sua característica de mês mais seco em boa parte do país, com temperaturas em geral acima da média. Segundo os meteorologistas, os efeitos mais expressivos do fenômeno só tendem a aparecer mais adiante do ano. Por isso, vale levar o fenômeno a sério. Somado ao aquecimento global, se reforça a importância da prevenção, individual e coletiva. Conhecer o fenômeno, acompanhar as previsões e agir com antecedência é o que transforma a ameaça em desafio administrável. Na verdade, as condições ambientais e climáticas são cada vez mais agressivas. A degradação do meio ambiente, os fenômenos climáticos extremos, potencializado pelo El Nino, são desafiadores para a saúde, a qualidade de vida e a nossa sobrevivência no planeta. Gilberto Natalini- Médico e Ambientalista

CALOR EXTREMO CAUSANDO MORTE

Uma das piores consequências do aquecimento global, e das suas mudanças climáticas, é o calor extremo. Isso se podemos falar que há uma pior. Mas as ondas de calor, que vem se repetindo no mundo e por aqui, com mais frequência e mais intensidade, causam estragos muito maiores do que a desconfortável sensação térmica existente. O corpo humano é feito para funcionar dentro de uma variação limitada de temperatura, entre o limite do frio e do calor. Tanto o frio excessivo como o calor excessivo causam prejuízos aos tecidos do corpo humano (e dos outros seres vivos), que podem ser fatais. Acima de 35°C, nosso organismo começa a sentir os efeitos deletérios, que produzem o desconforto térmico, o desarranjo funcional dos órgãos, e até, nos casos extremos, a morte. Os termômetros têm registrado em várias ocasiões de cada ano, acontecendo em regiões cada vez mais abrangentes, valores que ultrapassam os 40/45°C, com sensação térmica que tem chegado a 50°C. Os resultados disso ainda são pouco conhecidos pelas pessoas. Mesmo os médicos e os cientistas ainda sabem pouco sobre isso e tratam do assunto. O fato é que o calor extremo tem sido o pior fenômeno climático, o que mais tem atingido, afetado e matado pessoas. Ao chegar acima de 35°C, a temperatura causa profundas alterações na homeostase corporal dos seres vivos, produzindo e desenvolvendo alterações fisiológicas no sistema cardiorrespiratório, nervoso, e em outros órgãos de nosso corpo. Assim, principalmente em crianças e idosos, causa perda de água, desidratação, alterações de pressão arterial, e de viscosidade do sangue. Em pessoas com doenças preexistentes, aumenta a incidência de infarto, AVC, insuficiência renal, e efeitos neurológicos, podendo chegar a um desfecho fatal. É preciso esclarecer e alertar as pessoas para que se previnam e se tratem dessas moléstias. Está provado cientificamente que durante as ondas severas de calor, o número de infartos e derrames aumentam bastante. E muitos óbitos que acontecem nesse período têm relação direta com as altas temperaturas. Assim, é preciso evitar a exposição ao sol nesses momentos, evitar praticar exercícios físicos nas horas críticas, hidratar-se muito, mesmo que não tenha sede, e também ter atenção redobrada para qualquer sintoma físico diferente. Os ambientes arejados e refrigerados são indicados no calor intenso, na medida das possibilidades. As sombras das árvores são providenciais. E em caso mais agudos, deve-se procurar um serviço de saúde. Os médicos e demais profissionais de saúde são agentes fundamentais no esclarecimento, e na mobilização da população para ações concretas na prevenção e combate às consequências do calor extremo. Todos esses cuidados individuais devem ser acompanhados de medidas coletivas para prevenir o aquecimento global. Cada pessoa tem um papel muito importante para ajudar a evitar uma trágica marcha do Planeta rumo a temperaturas mais altas, que estão alterando todo o equilíbrio do clima. Em próximos artigos abordaremos como cada um pode e deve ajudar. Gilberto Natalini- Médico e Ambientalista