Aprendi desde a década de 70, nos bancos da Escola Paulista de Medicina (EPM-UNIFESP), que a saúde das pessoas está diretamente relacionada ao lugar que elas vivem e aos hábitos de vida, individuais e sociais.
Dessa forma, desenvolvi todo o meu conhecimento e prática médica olhando os pacientes, não só como indivíduo isolado, mas levando em conta seu histórico de vida, o meio ambiente que o cerca e seus hábitos pessoais e coletivos.
Essa visão da medicina comprovou-se cada vez mais correta.
O médico, além de um conhecedor da fisiopatologia humana, deve ser um ativo agente sócio ambiental, se quiser praticar a profissão de forma mais correta.
E assim tenho agido nos últimos 55 anos.
Já na Faculdade comecei a atuar no movimento estudantil, lutando por melhores condições de ensino para nós, melhores condições de vida para a população e pela Democracia no Brasil.
No decorrer das décadas seguintes, nunca arriei a bandeira, apenas fui acrescentando pontos a ela.
Assim fundamos e organizamos o movimento dos residentes no Brasil. Estivemos na Diretoria do Sindicato dos Médicos/SP por três gestões e atuamos na Associação Paulista de Medicina desde o final da década de 70.
Também fomos para a periferia da Cidade de São Paulo, criando o Voluntariado Médico do Cangaiba e fundando a Associação Popular de Saúde, onde atuamos até hoje.
Em todas essas frentes de atuação, propusemos e executamos um trabalho de humanização do atendimento médico, atuando socialmente para melhorar as condições de vida das comunidades e proteger o meio ambiente.
Participamos ativamente da proposição e criação do SUS, desde o início, passando pela Assembleia Nacional Constituinte e as Leis Complementares.
Desde 1980 já vínhamos atuando como chefe do Departamento de Medicina do Trabalho do Sindicato dos Motoristas de Ônibus de São Paulo, onde criamos uma extensa ação de melhoria das condições dos ônibus da Cidade.
Mantenho consultório há 40 anos, atendendo clínica médica e cirúrgica.
Em 1989 fui concursado como médico na Prefeitura de São Paulo. Em seguida assumi o cargo de Coordenador de Saúde do Trabalhador do Distrito e do Hospital do Campo Limpo. Ali desenvolvemos um extenso trabalho de Saúde do Trabalhador, com atendimento a pacientes e ação preventiva, educativa e fiscalizatória nos ambientes de trabalho da região.
Todas essas ações nos diversos locais descritos seguiram a premissa inicial de meio ambiente e saúde.
Em 1997, assumi a Secretaria de Saúde de Diadema. Logo em seguida fui eleito Presidente do Conselho de Secretários Municipais de Saúde do Estado de São Paulo (COSEMS), onde fiquei por 2 gestões, e em seguida eleito para a Presidência do Conselho Nacional dos Secretários Municipais de Saúde do Brasil.
Foram 4 anos de implantação prática do SUS nos 5561 municípios do país.
Um tempo riquíssimo de expandir a rede pública de saúde e sustentabilidade. O José Serra era Ministro da Saúde e a parceria foi intensa. Foi quando criamos a rede de Municípios Saudáveis.
Para se ter uma ideia, em 1999 quando assumimos o CONASEMS, tinham 1800 equipes de PSF (Programa de Saúde da Família) no Brasil. Quando sai, em 2000, já existiam 18 mil equipes. Um trabalho de parceria entre os municípios e o Ministério da Saúde, coordenados por nós, e gestão do Ministro Serra. Um aumento de 10 vezes, em 2 anos.
Considero esses tempos como uma atuação exitosa no conceito de atendimento e promoção de saúde, além do primeiro trabalho que fizemos em Diadema, reconhecido pelos setores sociais da cidade.
Diminuímos a mortalidade infantil naquele município de 22.8 para 14.1, em quatro anos, e continuou em queda, entre muitos outros indicadores que atuamos.
Em 2000 concorri e fui eleito vereador da cidade de São Paulo, tendo exercido 5 mandatos, por 20 anos, até não querer mais concorrer em 2020.
Nesse período tive 97% de presença no Plenário e nas Comissões, fiz mais de 2000 discursos em Plenário e apresentei 419 Projetos de Lei, tendo aprovado 147 Leis.
Minha atuação parlamentar foi nas áreas da Saúde, Meio Ambiente, Urbanismo e Zeladoria Urbana, com forte impacto na Cidade de São Paulo.
Leis como dos ônibus elétricos, logística reversa municipal, aproveitamento de madeira de poda de árvores, água de reuso, programa de Psoríase, de Alzheimer, criação de vários Parques (Vilas Boas e Bexiga, entre outros), fiscalização de recursos públicos, e muitos outros surgiram de nosso Gabinete.
Criamos a exitosa Conferência Municipal de Mudanças Climáticas que está em sua 23ª edição.
Nesse período fui Secretário Municipal de Participação e Parcerias, do Verde e Meio Ambiente e de Mudanças Climáticas.
Participei de inúmeros Conselhos e Movimentos Sociais, sempre com a visão de integrar meio ambiente, clima e saúde.
Participei de várias COPs, representando a Cidade.
E lutei, lutei muito, pelas Leis ambientais e climáticas da Cidade.
Lutei demais e dei o exemplo pessoal pela moralidade pública. Sempre!
Entre 2015 e 2020 me empenhei em defender as matas da Cidade, em particular nas margens das represas, que vinham sendo devastadas pela ação imobiliária do crime organizado (PCC).
Produzi o dossiê “Devastação da Mata Atlântica de São Paulo”, e denunciei, combati, e conseguimos diminuir o crime ambiental praticado. Por isso tive 14 ameaças de vida, mas sobrevivi.
Não me aposentei, mudei de trincheira, do parlamento para a sociedade civil.
Hoje, a convite, coordeno a área de meio ambiente da AFPESP (Associação dos Funcionários Públicos do Estado de São Paulo) e a Comissão de Meio Ambiente, Clima e Saúde da APM (Associação Paulista de Medicina). São trabalhos pró-bônus de grande importância.
Para mim, a prática da medicina é um misto de ciência, técnica e compromisso sócio ambiental.
Gilberto Natalini- Médico e Ambientalista