Gilberto Natalini SP

A ÁGUA NOSSA DE CADA MINUTO!

Os seres vivos, incluindo os humanos, têm grande quantidade de água nos seus organismos. Nós somos cerca de 80% de água quando crianças e 65% quando adultos. Ou seja: água e vida são sinônimos. O Planeta Terra é composto de 70% de superfície de água e 30% se terra. Água doce é 2,5% da água do mundo. A população do mundo beira a 8 bilhões de pessoas e o consumo de água per capita por dia é muito variável. Nos EUA é de 214 litros, no Brasil é 140 litros por pessoa. Daí, veja a imensidão de litros de água doce consumida só pelos humanos. Além disso, temos o uso na agricultura, na indústria, nos serviços e agora o enorme consumo com a Inteligência Artificial. Ainda temos o agravante do consumo irracional dos recursos hídricos. Poucos praticam o reuso da água, recolhem água da chuva em seus domicílios, têm a prática de economizar nos banhos e outros usos. Enfim, nós humanos, usamos e abusamos do uso da água, num consumo enorme, desplanejado e perdulário. Só como um exemplo, cerca de 30% da água encanada fornecida no Brasil, se perde no caminho da torneira. Agora, além do imenso valor do consumo, do desperdício e do descaso, temos novos fatores que agravam a situação. Nos tempos atuais, com o fenômeno do aquecimento global e as consequentes mudanças do clima, mudou também o regime das chuvas Dessa maneira, ao mesmo tempo que temos precipitações pluviais, violentas em alguns locais, temos também estiagens prolongadas em outros. Veja os exemplos de tempestades violentas no sul do Brasil, América Latina, na Europa, Ásia, EUA, no Oriente Médio, e outros cantos. Da mesma forma vivemos estiagens cruéis, como é o caso do Nordeste da África, onde já faz vários anos que não chove, no Sudeste do Brasil e no Irã, onde se cogita mudar a Cidade de Teerã de local, pela falta crônica de água. Só quem está sofrendo o problema sabe o que é viver sem água. É impossível! Alguns países estão usando tecnologia para produzir água, como as chuvas e a dessalinização da água do mar, que tem seus senões, como por exemplo, onde jogar o sal, sem causar desequilíbrio ambiental. Na verdade, antes de tudo, deveríamos avançar nas medidas globais de combate e prevenção do Aquecimento Global para frear o avanço das Mudanças Climáticas. E fazer um grande pacto mundial para o uso racional da água, seja no consumo individual, como no coletivo. No caminho que estamos seguindo, do comportamento humano, esse pacto é bastante difícil. Mas não temos outra escolha. Além de usar todos os meios científicos e tecnológicos para produzir e proteger a água, teremos que mudar o comportamento dos humanos, que acham que a Mãe Natureza é infinita para nos oferecer a vida. Não é! Gilberto Natalini- Médico e Ambientalista

ABAIXO A DITADURA DO IRÃ!!!

O povo do Irã saiu nas ruas para combater e derrubar a ditadura teocrática dos Aiatolás, que massacra os iranianos há quase 50 anos. Durante esse tempo foi instaurado um regime político atrasado e cruel, baseado em conceitos religiosas fanatizados, levando o país a um retrocesso que perseguiu as mulheres, os jovens e os democratas, prendendo e executando opositores do governo e ativistas pela liberdade. O Irã é um país milenar que vem do poderoso Império Persa, e viveu uma revolução popular no final da década de 1970, comandada pela cúpula religiosa do país, que derrubou a monarquia autoritária do Xá Reza Pahlavi. Desde então a mão de ferro da teocracia reprime qualquer tentativa de romper com os costumes, entre eles a proibição das mulheres terem uma vida livre e moderna. A atual e grave crise econômica somada com a crise ambiental de poluição, falta de água e de eletricidade detonou as massivas manifestações populares atuais. A repressão da Ditadura dos Aiatolás contra os manifestantes, aproxima-se da barbárie. Hoje fala-se em 20 mil assassinatos com tiros nos olhos e na nuca, perpetrados pela “Guarda Revolucionária”, a mando do líder Ali Khamenei. São milhares de presos e perseguidos, censura à internet, aos telefones e à imprensa. O mundo se movimenta sobre isso, com as democracias europeias repudiando o massacre, Trump ameaçando invadir o país, Rússia e China num apoio silencioso à ditadura iraniana. O Brasil subiu no muro! Lula, sempre muito falador, até agora não disse uma palavra sobre o assunto. O Itamarati, a mando do governo, soltou uma nota insossa, e em meio à matança covarde, pediu moderação, mas não ousou apontar o dedo para denunciar a ditadura facínora do Irã. A omissão do Brasil é vergonhosa! A dita “esquerda” brasileira (entre aspas mesmo) está muda, calada, escondida embaixo do manto ensanguentado dos mortos iranianos. Mais uma vassalagem ideológica que joga na vala da vergonha histórica essa gente que perdeu o direito de falar em justiça e humanismo. De minha parte, me solidarizo com o corajoso povo do Irã, em particular as mulheres e os jovens, que arriscando vida lutam pela liberdade e democracia. Que tenham força para chegar na derrubada daquela ditadura! Todo apoio ao povo iraniano! Gilberto Natalini- Médico e Ambientalista

2026: Mundo, Mundo, vasto Mundo…..

Para os mais longevos, como eu, a chegada do século XXI representava uma utopia, social e científica, que traria um grande avanço na existência da humanidade. Esse era o sonho de gerações inteiras! O sonho se desfez em brumas, nem sempre agradáveis de serem vividas. Agora, no segundo quarto do século, consolida-se mais o quadro real de nossas vivências. É claro que temos avanços na qualidade de vida, nas conquistas técnicas e científicas, que encurtam distâncias, conectam as pessoas, aumentam o tempo de existência, fazem milagres na medicina, na informática, na produtividade agrícola e industrial, na criação de riquezas. Sim, isso é real! Mas a que custo??? Vemos a olho nu, os recursos naturais do Planeta, na terra, na água e no ar, sendo delapidados, numa exploração desplanejada e gananciosa, retirando muito mais do planeta do que sua capacidade de regeneração. A depredação ambiental é uma das marcas principais desses tempos. Por outro lado, também vivemos a imensa produção de riquezas proporcionada pela revolução tecnológica. Porém, a desigualdade e a exclusão social jogam na pobreza e na miséria bilhões de seres humanos entorno da terra, que não tem o que comer e o que beber. No quadro geopolítico desenha-se uma situação onde três superpotências numa combinação tácita, dividem o planeta em três partes e cada uma vai se apoderando, econômica e militarmente de seu pretenso pedaço. Os EUA, a Rússia e a China duelam por seus domínios numa nova “guerra fria”, onde direita e esquerda não contam mais, e as autocracias vão asfixiando cada vez mais as democracias liberais. A Europa envelheceu. Perdeu o glamour diante das hostes de imigrantes da fome e do clima. A África sofre de desnutrição crônica na falta de comida, mas também de falta de perspectivas. O Oriente Médio, adora soltar bombas uns sobre os outros. A América Latina respira por aparelhos, sem força para se erguer social e economicamente. As guerras hoje são por regiões e com drones, e as anexações são por petróleo, por terras raras ou outros recursos naturais. A paz mundial que sonhamos outrora tornou-se uma quimera, e cada um dos três impérios se expande pela força ou pela grana, invadindo, ameaçando, comprando e subornando nações inteiras, nos seus territórios planetários. Por cima disso tudo, temos o aquecimento global produzido pela mão humana, com seus fenômenos climáticos extremos, universalmente destruidores. Enquanto parcelas enormes da população mundial se distrai nas redes sociais, muitas delas fakeadas, e o mundo do trabalho se modifica pela tecnologia e mecanização, os (poucos) ricos ficam cada vez mais ricos, a biodiversidade fica cada vez mais pobre, o clima age como enlouquecido, as democracias fenecem todos os dias, e a Humanidade vive um stress existencial jamais vivido em sua história. Nossa utopia está combalida, mas não morreu. Quem topa reanimá-la? Vamos nessa!!! Gilberto Natalini- Médico e Ambientalista

ANO VAI, ANO VEM!

Vai findando 2025! Um ano difícil, num mundo onde a paz deu lugar ao espectro da guerra, a Mãe Terra teve sua natureza mais devastada e a luta das pessoas pela sobrevivência foi enorme. É claro que houve boas notícias. Sempre tem! Mas no balanço geral, no quesito felicidade humana, 2025 deixou muito a desejar. Se temos inteligência, agora até artificial já temos, se conseguimos entender e dominar os fenômenos naturais, se desvendamos mistérios todos os dias, por que a humanidade padece tanto??? Uma resposta complexa e fácil ao mesmo tempo. A alma do bicho homem vive em luta com ela mesma. Tem a enorme dúvida existencial sobre a vida e um gigantesco desejo de poder e riqueza. Com isso perde o juízo. Agride a si próprio e aos que estão ao seu redor. A pandemia de angústia ocupa 2025, acompanhada do avanço da degradação ambiental, dos eventos climáticos extremos e da desigualdade social crescente. Dá para afirmar que os humanos estão vivendo o stress da espécie, talvez o maior e mais profundo que já viveu. O que nós podemos esperar do Ano Novo? Pelo andar da carruagem, não devemos ter grandes ilusões com 2026. O stress da espécie humana não deve arrefecer, a destruição ambiental e climática vai continuar e a desigualdade social só aumenta nesse mundo. Portanto, desejar Bom Ano Novo me parece um pouco temerário. Mas por maior que sejam os percalços, nunca vamos desistir de buscar o mundo melhor! É a nossa teimosia histórica. É o nosso carma, nossa sina e destino. Assim, desejo muita saúde, força, determinação, aqueles que como eu, não se conformam diante da violência, da criminalidade, da corrupção, da guerra, da fome e da miséria, do desrespeito e do preconceito, para que possam trabalhar e lutar no caminho de um degrau a mais para a felicidade humana. Dizem que sem utopia a gente não vive. Então, adentro 2026 carregando essa utopia de toda a vida! Que venha o Ano Novo!! Gilberto Natalini- Médico e Ambientalista

Entrevista para o projeto Trajetória da Saúde em São Paulo

Em entrevista para o projeto Trajetória da Saúde em São Paulo: Instituições, Ideias e Atores, Gilberto Natalini compartilha sua longa caminhada na saúde pública e na política, marcada pela militância desde os anos de estudante até a atuação na institucionalização do SUS. Ele relembra momentos fundamentais de resistência durante a ditadura militar, o trabalho voluntário nas periferias de São Paulo e a articulação junto aos movimentos sociais na luta por saúde pública para todos.  Natalini destaca sua participação ativa nas discussões e na implementação do SUS, ressaltando o papel da articulação com lideranças municipais e estaduais. Sua atuação no Conselho Municipal de Saúde (Cosems) e no Conselho Nacional dos Secretários Municipais de Saúde (Conasems) foi essencial para impulsionar a municipalização e consolidar o sistema. A entrevista concedida ao coordenador do projeto, Nelson Ibañez, também aborda como ele ajudou a viabilizar a adesão de São Paulo ao SUS, colaborando com vereadores de diferentes espectros políticos, mesmo em posição de oposição ao governo de Marta Suplicy (2001 a 2004).  A conversa ainda traz uma análise crítica do impacto das Organizações de Saúde (OS) na gestão pública e dos desafios enfrentados pelo SUS nos últimos anos, como o enfraquecimento das estruturas institucionais e a falta de controle rigoroso de recursos. Natalini reflete sobre a necessidade de superar a polarização política e reafirma a importância de uma gestão responsável para garantir o funcionamento do sistema. Em um momento de mudanças e incertezas, ele enfatiza que o legado do SUS precisa ser preservado por meio de colaboração e compromisso contínuos com a saúde pública.  Nelson Ibañez: Para começar, gostaria que você contasse um pouco sobre sua trajetória, tanto pessoal quanto profissional, destacando sua inserção na área da saúde.  Gilberto Natalini: Agradeço e parabenizo a dedicação de vocês em organizar a história do Sistema Único de Saúde (SUS) e da saúde pública, junto à luta do povo brasileiro por uma atenção à saúde digna e justa. Vou procurar ser breve, porque minha história é longa e tem muita coisa que aconteceu ao longo do caminho.    Nasci no Rio de Janeiro e, em 1969, vim para São Paulo para prestar vestibular e estudar medicina – um sonho de vida. Desde criança, já tinha essa vontade. Meus avós moravam em São Paulo, então eu tinha parentes por aqui, mas meus pais ficaram em Campos dos Goytacazes, no interior do Rio, onde moravam na Usina São José. Peguei um ônibus da Itapemirim e cheguei a São Paulo apenas com uma maletinha na mão. Me inscrevi no cursinho, estudei intensamente por um ano, fiz o terceiro colegial aqui e passei no vestibular, o famoso  Centro de Seleção de Candidatos às Escolas Médicas (CESCEM), para entrar na Escola Paulista de Medicina, da Universidade Federal do Estado de São Paulo (Unifesp).  Minha militância política começou ainda em 1964, no Rio de Janeiro, em meio ao início da ditadura militar, quando eu era estudante secundarista. Mas foi na Escola Paulista que realmente nos organizamos. Formamos um pequeno grupo de oposição ao regime militar. Não éramos muitos – dos 120 alunos da minha turma, talvez 20 participassem desse grupo. A repressão era intensa e a maioria dos alunos vinha de uma classe média mais alta, que em geral apoiava o governo.  Mesmo assim, levantamos nossas bandeiras. Em 1970, começamos a defender o ensino gratuito e público, além de um sistema de saúde que também fosse público. A primeira vez que levantei essa discussão sobre saúde na Escola Paulista foi em uma assembleia de alunos, durante uma crise no Hospital São Paulo. As crises, como você sabe, Nelson, são recorrentes. Naquele momento, propus que a federalização do Hospital São Paulo seria a única solução possível para resolver ou ao menos reduzir os problemas.  Claro, isso causou controvérsia. A federalização significava uma intervenção governamental, e houve resistência, mas muitos sabiam que eu tinha razão. Por conta dessa fala, acabei sendo perseguido pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). Passei uma semana correndo deles pelo campus da Escola Paulista, porque o Serviço Nacional de Informações (SNI) tinha uma sala ao lado da diretoria da escola.   Nelson: E como essa luta se materializou na prática, especialmente após sua formatura? Qual foi o impacto direto dessa experiência na sua trajetória profissional?  Natalini: Era uma coisa terrível. Desde aquela época até hoje, tenho lutado por um sistema público de saúde que atenda a população com dignidade e valorize também os profissionais de saúde. Conquistamos muitas coisas, mas a luta começou cedo.  Durante meu tempo na Escola Paulista de Medicina, onde me formei em 1975, fui preso em 1972 e levado ao DOI-CODI, onde sofri tortura nas mãos do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. Lá conheci um operário chamado João Chile, da oposição metalúrgica, que vivia no Cangaíba. Na cela, ele nos provocou, dizendo que, após nos formarmos, acabaríamos tratando apenas de ricos e esqueceríamos nossos ideais de estudantes, como muitos fazem.  Decidi provar que ele estava errado. Escondi o endereço dele na barra da calça e, até me formar, juntei um grupo de colegas para transformar nossa formação em ação concreta. Em janeiro de 1976, logo após a formatura, fui com mais 12 pessoas ao endereço do João Chile. Batemos à porta e eu disse: “A burguesia chegou. Cadê o povo para ser atendido?”. João quase desmaiou de surpresa, mas celebrou conosco. Levamos algumas tubaínas e frangos assados, e depois ele nos apresentou aos padres da igreja local, que tinha um ambulatório fechado por falta de médicos.  Começamos a atender ali todos os sábados, e esse ambulatório funciona até hoje, após 48 anos, com o apoio de voluntários e da comunidade. Nosso objetivo sempre foi usar o atendimento e as necessidades individuais para mobilizar a população a melhorar a saúde coletiva do bairro e da região.  Com o apoio de Dom Angélico Sândalo Bernardino, bispo da região na época e hoje bispo emérito, fortalecemos esse projeto. Criamos grupos de acompanhamento para grávidas, crianças, idosos, diabéticos e hipertensos – uma iniciativa que já antecipava o tipo de assistência comunitária

A VACINA DA DENGUE! Vitória e alerta!

Tivemos há pouco a notícia que a ANVISA aprovou o uso da vacina de dose única contra a dengue do Instituto Butantã. Foram muitos anos de pesquisa para produzir uma vacina genuinamente brasileira. Minha manifestação: Viva a Ciência! Viva o Butantã! Essa vacina prevê quase 80% de sucesso na prevenção da doença e quase 100% da prevenção de casos graves e morte. Um avanço cientifico e social estrondoso! O Ministério da Saúde já sinalizou que vai comprar e distribuir o imunizante a partir de 2026. Um grande ganho sanitário ao conter uma virose que inferniza nossas vidas há muitas décadas. Temos que comemorar muito essa conquista. Mas, para além dessa comemoração, cabe-nos fazer uma reflexão. O Brasil não conseguiu debelar a multiplicação do mosquito, que se reproduz em 80% dos casos dentro dos domicílios e imóveis. Isso demonstra nossa incapacidade, enquanto país, de eliminar os fatores de proliferação do Aedes, que é basicamente os reservatórios domésticos de água parada, por incompetência, desinformação, teimosia ou desleixo mesmo. Além disso, o mosquito que se urbanizou nessas décadas, foi ocupando todo o território nacional, e com as mudanças climáticas já chegou na Flórida (EUA) e caminha para o Sul, rumo à Argentina. Se levarmos em conta que o Aedes, além da dengue também transmite a Zika e a Chikungunya, podemos chegar à algumas conclusões pertinentes. Em que pese o grande avanço da vacina, não podemos, de forma nenhuma relaxar no combate à proliferação do Aedes Aegypti. Isso precisa ficar muito claro. O Ministério da Saúde deve, e vai, comprar e distribuir a vacina anti dengue do Butantã. Mas jamais poderá desleixar ou arrefecer nos programas de conscientização e fiscalização para o combate aos criadouros das larvas, que repito, estão localizados dentro dos nossos quintais. Isso tem a ver com eficiência nos programas de saúde pública, de comunicação social de interesse coletivo e com a participação popular num ato de cidadania. Por fim, reafirmo minha efusiva parabenização ao Instituto Butantã, que nesse e em outros inúmeros casos, tem honrado a ciência e a medicina brasileira. Gilberto Natalini- Médico e Ambientalista

O MAPA DA COP-30 DERRAPOU NO CAMINHO

Todos já sabem a gravidade dos fenômenos climáticos extremos. As pessoas estão vivendo seus estragos ao redor do mundo. Também sabemos que as mudanças climáticas, produzidas pela ação humana, na queima dos combustíveis fósseis, caminha muito mais rápido do que as ações que temos feito para preveni-las e combatê-las. Assim chegamos à 30 ª COP, na esperança coletiva de termos os avanços necessários para virarmos esse jogo. A COP de Belém foi um evento grandioso. Cerca de 50 mil pessoas e quase 200 países participaram durante quase duas semanas de milhares de negociações, eventos, debates, conversas em grupos e individuais, declarações e discursos. Mas tivemos dois tipos de problemas: a infraestrutura do local e as conclusões finais. A área construída para o evento era muito ampla e aparentemente confortável. Mas a refrigeração local sucumbiu diante do calor úmido da Amazônia. Fez um calor enorme lá dentro. Também a infraestrutura de alimentação, de água, e elétrica, deixaram a desejar, a ponto de termos um incêndio que foi logo controlado. A cidade de Belém recebeu bem os participantes, oferecendo como pôde sua hospitalidade, sua diversidade cultural e étnica. Mas, o que importou mesmo foi o conteúdo do evento e seus resultados. Houve uma grande presença de pessoas na zona verde, onde as ONGs e as diversas representações sociais estiveram. Várias manifestações também aconteceram, inclusive dos indígenas da Amazônia. Dentro da zona azul, as delegações e os credenciados se desdobravam em assembleias e reuniões bilaterais, foram negociações e contatos pessoais intermináveis. Tudo indicava que a COP-30 traria novidades ansiadas do chamado Mapa do Caminho para nos livrarmos, gradativamente dos combustíveis fósseis. Mas, a partir de alguns dias do evento as negociações emperraram. Os países produtores de petróleo, que tinham lá 1600 credenciados pela ONU, apoiados pela Rússia, pela Índia e pela China, e tendo o ausente EUA manipulando por trás, se colocaram contra qualquer menção a combustíveis fósseis no documento final. E assim foi! A COP da esperança se tornou a COP da decepção. Desviaram toda a atenção para a adaptação, deixando a mitigação de lado. A adaptação é muito importante, mas é consequência. É como se um paciente com infecção, tratássemos só a febre deixando as bactérias agirem soltas. Isso foi ruim demais. Não temos mais tempo para irmos aos tombos, ano após ano. Sabemos como é difícil fazermos a transição para buscar novas fontes de combustíveis limpos. Sabemos das dificuldades políticas, econômicas, sociais e tecnológicas para seguir esse “Mapa do Caminho”. Mas a omissão dessa COP foi um tapa na cara da humanidade. E a ganância dos petrolíferos falam mais alto que a nossa sobrevivência. Gilberto Natalini- Médico e Ambientalista

COP-30: BALANÇO PARCIAL

Vim para a COP-30, como membro do GT da Prefeitura SP, representando a Sociedade Civil, em nome da AFPESP. Estive em várias COPs e não poderia faltar em Belém, pelo extenso trabalho ambiental e climático que desenvolvemos em São Paulo, há décadas, seja como parlamentar, seja como cidadão, agora enquanto Coordenador de Meio Ambiente da AFPESP. Temos ciência dos enormes desafios e dificuldades políticas, econômicas, sociais e ambientais que a Humanidade enfrenta. Sabemos também das resistências que vários setores têm para embarcar no caminho da transição energética, da economia verde, da recuperação ambiental do Planeta. Vivemos isso todos os dias. Conhecemos as limitações das COPs, em suas negociações e implementações das políticas ambientais e climáticas. Mas, temos também plena consciência da oportunidade e da necessidade de reunir a governança global, os líderes empresariais e comunitários para debater e produzir avanços na crise que ameaça a própria sobrevivência da vida no Planeta. Foi com esse espírito que vim a Belém. Participei de dezenas de agendas nas Zonas Azul e Verde, governamentais e não governamentais. Eu participei do encontro de lideranças ambientalistas no barco Banzeiro da Virada Sustentável, como palestrante das mesas do Ministério do Turismo sobre turismo sustentável, da rede Internacional e Nacional dos Hospitais Saudáveis, da Plenária de lançamento do Plano Global da Adaptação no Setor Saúde, da Plenária de balanço parcial dos trabalhos e negociações, feito pelo Presidente da COP. Além de diversos eventos nos pavilhões, conversas, encontros pessoais, e outras atividades. Procurei trazer, onde estive, a mensagem dos paulistanos e dos servidores públicos do Estado de São Paulo. Aprendi, convivi, expliquei, divergi, mas sempre buscando o caminho do consenso possível e necessário. A COP-30 contou com a presença de 50 mil pessoas. As instalações são muito amplas, em parte com construções desmontáveis. As distâncias entre os eventos são enormes. A ventilação/refrigeração deixou a desejar diante do imenso calor de Belém. Também a alimentação nas áreas internas foi precária, com pouca oferta e filas enormes. As acomodações foram boas, com salas amplas e confortáveis. E tanto o pavilhão dos países, na Blue Zone, como das entidades civis e empresas, na Green Zone, foram razoáveis. Milhares de reuniões e encontros paralelos foram realizados dentro e fora do local da COP. E também os contatos e as conversas individuais foram incontáveis. O mundo estava ali através de 198 países. Houve vários protestos de grupos, ativistas, povos indígenas, como já era esperado. A agenda central da COP-30, a negociação entre as delegações, começou bem, com um consenso sobre a pauta dos trabalhos. Mas a partir do terceiro dia começaram as divergências. Parece que há mais acordo no avanço das medidas de adaptação. No entanto, no quesito mitigação aparecem as divergências, principalmente dos países produtores de petróleo e seus aliados. Isso atrasa as decisões sobre o avanço da transição energética. A equipe de negociação do Brasil é muito habilidosa, mas isso não basta para convencer os petrolíferos. Temos até o dia 21/11 para acompanhar o desenrolar das conversas. Sem otimismo inocente, mas sem derrotismo. Muitos criticam os resultados das COPs, por não corresponderem aos anseios e necessidades das medidas concretas nas mudanças climáticas. De fato, a velocidade dos fenômenos climáticos é muito maior do que a ação humana para contê-los. Mas não temos outro caminho a não ser nos encontrarmos na trilha da mitigação e da adaptação. E a COP é esse momento que mostra toda a dificuldade de agirmos e toda a capacidade que temos para isso. Gilberto Natalini- Médico e Ambientalista Coordenador de Meio Ambiente da AFPESP/ Membro do GT COP30 da Prefeitura de SP

A MEDICINA E O CLIMA

É sabido de todos que as pessoas vítimas das agressões biológicas, sociais e ambientais acabam caindo nas mãos dos médicos e demais profissionais de saúde. É assim com as pessoas que sofrem de doenças degenerativas como diabetes, hipertensão, tumores, doenças autoimunes e tantas outras. Tem aqueles que sofrem lesões externas como acidentes de trabalho, de trânsito, violências físicas e mentais, também acabam nas unidades de saúde ou nos consultórios médicos. Daí, podem sair recuperados, com sequelas ou mesmo vir à óbito. As poluições ambientais e os desequilíbrios da natureza, são a causa da grande maioria das doenças que atingem os seres humanos. As poluições do ar pelos particulados, os abusos dos produtos de beleza, as más condições de trabalho e de moradia, os excessos de álcool, drogas, tabaco, entre muitos outros, estão entre os fatores causais de 90% das patologias. Agora, exacerba-se mais um fator ambiental como causador de adoecimento e morte entre os humanos. Trata-se das mudanças climáticas, com seus fenómenos extremos, causados pelo aquecimento global. Fenômeno da modernidade, causado pela ação humana na queima de combustíveis fósseis ou pelo desmatamento, esses fatores têm provocado verdadeiras epidemias na humanidade. Seja pelas doenças infectocontagiosas crescentes e ameaçadoras, seja pelas ondas de calor extremo, ou pelos desastres climáticos, como chuvas violentas ou secas prolongadas. As mudanças climáticas estão piorando as condições de saúde de bilhões de pessoas no planeta. Mais uma vez, essas pessoas acabam nas mãos dos médicos e das equipes de saúde. Mas vai aqui um alerta! Os médicos e os demais profissionais de saúde ainda não se encontram conscientizados e preparados para lidar com essa nova realidade. Muitos ainda não ligam a causa ao efeito, e caminham ao largo da etiologia das enfermidades. Trata-se de levar essa realidade à presença da Medicina para que todos conheçam, se aprofundem e ajam na medida que a calamidade sanitária exige. Portanto. Mãos à obra!!! Gilberto Natalini- Médico, Ambientalista e Coordenador de Meio Ambiente da AFPESP

O CAPITALISMO PREDATÓRIO E A DESTRUIÇÃO AMBIENTAL

Para início do debate, ninguém esconde que é fundamentalmente decisivo entender qual a nova realidade que está surgindo, em tempos de emergência climática (assunto ainda desconhecido para mais de 30% da população brasileira, de acordo com pesquisa recente) e em tempos de muita tecnologia em que o principal fator de produção é o conhecimento.Seja como for, a questão, em linhas gerais, ganha a seguinte formatação: lá fora há um capitalismo devorador de recursos (modo de produção com sua lógica intrínseca de maximização do lucro) que provoca, na base, uma crise civilizatória, e que não hesita em jogar para escanteio a preocupação ecológica.Mais do que isso, pensando primeiramente nos desdobramentos de nossa realidade particular, esse típico, influente e dominante modelo (por certo, o elemento principal que promove a relação destrutiva do potencial ecológico) submete, entre outros, a floresta amazônica aos ditames do agronegócio (no Brasil, nunca é demais frisar, a agropecuária responde por cerca de 96% da área desmatada no Brasil, segundo o Relatório Anual do Desmatamento 2022).Assim sendo, e insistindo no assunto, falamos de uma dinâmica do capitalismo que, no fundo, parece que se especializou em queimar e desmatar a vegetação nativa para facilitar a expansão da fronteira agrícola; que ameaça milhões de espécies de plantas e animais; que transforma a riqueza verde do mundo vivo em commodities.Sem ineditismo, nesse ambiente complexo, importa destacar que a desigualdade explosiva e a crise ambiental devastadora são, sim, em nosso caso, os nossos mais imediatos desafios.Por isso se diz às claras que, num mundo em que as aplicações financeiras rendem mais do que investimentos em produção, a crise do meio ambiente, aqui ou acolá, permanece presente.Recorte feito, é certo que as principais mudanças globais aceleram a crise ambiental (o caos socioambiental).Não por acaso, olhando agora para a economia global e usando outros termos, os 110 trilhões de dólares de bens e serviços produzidos anualmente no planeta colocam em evidência o nível de devastação deixado na natureza, sempre exigida para comportar o tão aclamado crescimento econômico.Mas, vejamos: até certo ponto, trata-se de um crescimento que, com a força das evidências, atende cada vez mais a parte (rica e abastada) acomodada no andar de cima da pirâmide.Os mesmos, como é sabido, que prontamente danificam toda a causa ambiental.Por esse lado, tomando os dados mais atuais e colocando-os em perspectiva, não é segredo o que está devidamente destacado no estudo Climate Change And The Global Inequality of Carbon Emissions (Chancel, 2022): os 10% mais ricos são responsáveis por cerca de 20 vezes mais emissões em comparação com os 50% mais pobres em escala global.Tudo interligado e relacionado. Tudo generalizado em termos de crises ambientais contemporâneas. Exploração, dominação, devastação e acentuada piora do meio ambiente e da qualidade social da vida moderna. Vivemos, pois, uma situação de urgência.Ladislau Dowbor, olhando para a outra ponta dessa mesma história, levanta uma oportuna provocação em seu recente trabalho Os desafios da revolução digital: “apenas as pessoas mais alienadas não se dão conta da catástrofe que representa a convergência de desastres ambientais, desigualdade explosiva, caos financeiro e violência generalizada.Nesse conjunto de relações e ações conturbadas, “tanto a desigualdade extrema quanto a destruição ambiental não são defeitos do sistema, mas a sua característica”, assim reconhece em forma de relatório o Unrisd, Instituto de Pesquisa das Nações Unidas para o Desenvolvimento Social, criado em 1963 e sediado em Genebra.De toda sorte, vamos lembrar dos aceleradores da crise ambiental reconhecidos pela ONU que inclui, sobretudo, a degradação da natureza, o rápido desenvolvimento de tecnologias como a Inteligência Artificial (transformação digital), a competição por recursos naturais, o aumento das desigualdades e a diminuição da confiança nas instituições.Nessa direção, não se pode perder de vista que o aumento por recursos hídricos e minerais críticos e por elementos de terras raras, de um jeito ou de outro, acabam condicionando novas pressões sobre a base ecológica conhecida.Na maioria dos casos, mesmo que não haja consenso, convém dizer que, pelas mãos da sociedade capitalista (o modus operandi é próprio: mais aumento de extração, mais produção, mais acumulação), degradação (e rupturas) de ecossistemas, perda de biodiversidade (a partir da exploração excessiva de recursos naturais e da eliminação de habitat), alterações nos padrões climáticos e poluição (de todo tipo) são, pesa reconhecer, as consequências mais visíveis de todo esse desajuste aqui mencionado.Portanto, na realidade, não tem como ser diferente. Daí em diante, para falar de modo convencional, nada mais lícito do que afirmar que a mudança climática (cada vez mais chamada de emergência climática pelos especialistas e intensificada em uma escala nunca vista), que está longe de terminar, ameaça de vez o futuro do planeta. Gilberto Natalini é médico-cirurgião, vereador por cinco mandatos na Câmara Municipal de São Paulo. Foi secretário municipal do Verde e do Meio Ambiente (2017) e candidato a governador do Estado de São Paulo pelo Partido Verde (PV) em 2014. Marcus Eduardo de Oliveira é economista e ativista ambiental. Delegado do CORECON-SP por Osasco. Autor de “A civilização em risco” (Jaguatirica, 2024), entre outros. prof.marcuseduardo@bol.com.br