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Gilberto Natalini SP

SALVEMOS A GUARAPIRANGA

Água nossa de todo dia. Ninguém vive sem água! Vira graveto!! A região metropolitana de São Paulo tem quase 22 milhões de habitantes, sendo 12 milhões na capital. Cerca de 4 milhões são abastecidos pela água da Represa de Guarapiranga (garça vermelha), que fica na Zona Sul da Cidade. Esse grande reservatório é formado por 12 córregos e centenas de nascentes que brotam do que ainda existe de mata atlântica remanescente na região. O espelho d’água da Guarapiranga que tem 27 Km² de extensão, e sua bacia hidrográfica possui 638 Km². A represa tem 118 anos e foi inaugurada em 1908. É cercada pelas Subprefeituras de Capela do Socorro, M’Boi Mirim e Parelheiros. No decorrer do tempo foi sendo ocupada por sítios e pequenas fazendas, depois por imobiliárias clandestinas, que lotearam bairros, até hoje ilegais, ocupações por movimentos populares de moradia, invasões formiguinhas e por último uma devastação feita pelo crime organizado que derrubou 1,5 milhão de árvores e assoreou 1000 nascentes. Assim, hoje a região do reservatório é densamente povoada, até as margens lindeiras ao espelho d’água. São cerca de 1 milhão de habitantes na bacia hidrográfica da Guarapiranga, desses 70% são da Cidade de São Paulo. São 207 mil desses morando em favelas. Esse imenso espelho d’água, vem morrendo aos poucos no decorrer do tempo, principalmente nos últimos 30 anos. A causa para esse “assassinato” é multifatorial, e tem se agravado a cada dia. A ocupação desordenada e predatória, seja qual for, é a principal causa. A imensa pressão social por moradia, somada à fraqueza e desleixo dos poderes públicos fizeram das áreas de mananciais grandes conglomerados de bairros, que destruíram a mata nativa, assorearam nascentes e trouxeram grandes massas de poluentes que feriram mortalmente o corpo da Represa Guarapiranga, a caixa d’água da Região Sul de São Paulo. Cerca de 50% do esgoto coletado de 1 milhão de moradores lindeiros à represa é devolvido ao espelho d’água, sem nenhum tipo de tratamento. Há também a poluição difusa, levada pelas chuvas e ventos de milhares de ruas e calçadas que circundam a área. E ainda temos o lixo doméstico despejado nos córregos e nas margens, que se depositam dentro do reservatório. Somada à toda essa agressão, temos ainda à alteração do regime de chuvas, que em período de longas estiagens, produz enorme redução do volume de água reservado. Por tudo isso, a situação da Represa de Guarapiranga é muito grave, havendo um grande risco de sua inviabilização. Pouca coisa vem sendo feita pelos governos e pela empresa que retira a água e deveria tratar os esgotos despejados lá. A eutrofização e o assoreamento da represa são assustadores. O tratamento dessa água se torna inviável. A continuar assim, Guarapiranga caminha para a morte, deixando de ser um manancial para 4 milhões de pessoas que ficarão sem água em suas torneiras, pois não há outra fonte que substitua Guarapiranga. Diante dessa trágica situação, nós estamos propondo uma corrente de lideranças e entidades que estejam dispostas a cobrar soluções urgentes para tentar salvar a Represa de Guarapiranga.  Convido você para participar de reunião de organização do movimento “Salvemos a Guarapiranga”. Será no dia 23 de setembro de 2026, às 16 horas, no Sindicato dos Engenheiros, Rua Genebra, número 25. Compareça! Gilberto Natalini- Médico e Ambientalista

A ELEIÇÃO DA DESESPERANÇA

       Temos visto as manifestações dos candidatos à Presidência no Brasil.        Tem sido um debate fraco, que não propõe saídas para os graves problemas do país. São arremedos de propostas.        A questão econômica fica na superficialidade. Hoje, 43% do orçamento nacional é drenado para pagar juros e serviços da dívida pública, sangrando e quebrando gravemente nossa economia, deixando míseros percentuais para as áreas sociais, penalizando a população.        Nenhum dos candidatos fala disso! Por medo, por ignorância, ou por conivência mesmo.        Outra questão candente, o meio ambiente e a emergência climática, passa à margem das observações dos candidatos. Continuamos sem rumo certo naquilo que é uma imensa ameaça, já presente em nossas vidas.        Os dois principais candidatos, artífices da polarização, se alimentam e se retroalimentam de questões ideológicas artificiais e tóxicas, que já saturaram o Brasil. Se acusam de corrupção, quando eles próprios têm vasto currículo nesse quesito. É o roto falando do esfarrapado.        Assim caminhamos para uma eleição que não vai resolver nossas necessidades. No mínimo, vai aumenta-las.        Tem sido muito difícil esse processo político.        A proposta de um centro democrático e ético não logrou ser construída até o momento como alternativa de poder, com um nome forte e respeitado para comandar o Brasil, junto com as forças que propõe a democracia, o desenvolvimento econômico com respeito à natureza, a maior equidade social e a fundamental moralidade pública.        Os dois principais candidatos têm 54% e 51% de rejeição popular. Portanto, essa será, novamente, a eleição dos rejeitados.        Pobre Brasil, órfão mais uma vez! Gilberto Natalini- Médico e Ambientalista

O TRÂNSITO E O HOME OFFICE

A cidade de São Paulo tem cerca de 9 milhões de veículos em sua frota urbana. Só motos são cerca de 1,3 milhões. Os ônibus urbanos somam cerca de 14 mil, mas chegam a 50 mil veículos se contarmos todos os tipos. Se toda essa imensa frota sair na rua de uma vez a cidade enfarta. As ruas entopem e pára tudo. Podemos dizer que não há vias suficientes para caber tantos veículos. Sabemos que parte dessa frota sempre fica parada e vai se revezando, mas mesmo assim, andar de carro em São Paulo vai ficando cada vez mais difícil. Mas, temos observado um fenômeno interessante. Nas 2ªs, quartas e sextas feiras, parece que tem menos carros nas ruas. O trânsito tem aliviado, flui mais fácil, e algumas vias ficam até semivazias. O que mesmo está acontecendo??? Pelo volume da frota, o rodízio de placas não está sendo mais suficiente para aliviar o transito, embora sem ele o caos já tivesse sido anterior. Na verdade, o advento do home office, o trabalho em casa, iniciado no tempo da pandemia da Covid-19, é o grande responsável pela diminuição do trânsito nos dias referidos. Se observarmos bem, nas 3ªs e 5ªs feiras, as ruas e avenidas de São Paulo, voltam a se locupletar de carros, tornando o trânsito infernal. Segundo consta, são justamente os dias que as pessoas saem de casa para o trabalho presencial. Nos sábados e até nos domingos, o número de veículos nas ruas é cada vez maior. Justamente nos dias que as pessoas saem para fazer compras e passear. O impacto dos dias de home office na queda de congestionamentos é um fato real. Mas, se formos pegar o Metrô às 6 horas da manhã, na estação Alto da Boa Vista, em Santo Amaro, as vezes temos que esperar de 3 a 5 trens para conseguir entrar, tal o abarrotamento de gente dentro dos vagões. O mesmo acontece com os ônibus que passam superlotados. Quem vai ali são os trabalhadores manuais, que não podem trabalhar à distância, pelas características de seus serviços. Os urbanistas, os ambientalistas, as pessoas de bom senso sempre propuseram o desenvolvimento regional da Cidade, para que as pessoas pudessem trabalhar no próprio bairro, evitando, às vezes, viagens de 2 horas de ida mais a volta do emprego. Mas a força do mercado e a falta e a falta de políticas públicas suficientes, nunca avançaram nesse sentido. Hoje, a tecnologia, a sociedade virtual, e a produção pela internet, permitem o home office, que por tabela está aliviando o fatídico entupimento do trânsito de São Paulo. Pelo menos por enquanto. Gilberto Natalini- Médico e Ambientalista

O MEIO AMBIENTE E O CLIMA EXISTEM?

Está rolando as eleições majoritárias e parlamentares no Brasil. Para Presidência da República temos inúmeros candidatos, mas pela polarização infeliz que o país vive, somente duas candidaturas parecem se impor. São os “ ícones da polarização”. De um lado, Lula do PT, e do outro Flavio do clã Bolsonaro. Mas, acompanhando as falas de todos os pretendentes, inclusive dos dois polarizados preferidos, não vemos uma só palavra, umazinha sequer, sobre sustentabilidade, clima e meio ambiente. Nenhuma análise, avaliação ou referência ao que mais ameaça a humanidade e os brasileiros; os fenômenos extremos das mudanças climáticas. Para esses candidatos, parece que esse problema não existe, sendo que ele é o problema dentro dos problemas. É certo que a situação econômica do Brasil é catastrófica, com 90 milhões de endividados, falências se multiplicando, crescimento econômico ameaçado, juros escorchantes e uma dívida externa que já passa de 10 trilhões de reais. É certo que a situação social aqui é vergonhosa. Somos campeões, ou vice, de desigualdade social e campeões mundiais de feminicídios. Disputamos o campeonato mundial de mortes por assassinatos e outras tantas por acidentes de trânsito. É certo que o Brasil está no ranking mundial dos países mais corruptos. É certo que os dois principais candidatos visitaram as cadeias e tem, cada um, mais de 50% da rejeição popular. Mas com todo esse quadro sombrio, sobrepõe-se as imensas ameaças, já sendo concretizados, das catástrofes climáticas e da degradação ambiental. Assim, vemos todos os dias, chuvas destrutivas e ventos uivantes no sul, estiagens terríveis no norte e centro-sudeste e calor extremo aqui e acolá. Vemos também uma agricultura insustentável, o ar das cidades poluído, a escassez hídrica nas metrópoles, a Amazônia e Mata Atlântica sempre ameaçadas. Vemos despejarem 50% do esgoto humano nos cursos d’água, a existência de cerca de 1800 cidades com lixões, e a “farra do boi” dos plásticos no solo e nos oceanos. Portanto, qualquer candidatura presidencial ou parlamentar decente, deveria abordar, além dos problemas políticos, econômicos e morais que são imensos, a questão da sustentabilidade, o clima e o meio ambiente. E isso nós não temos visto por aqui. Gilberto Natalini- Médico e Ambientalista

AS ELEIÇÕES VÊM AÍ: CUIDE DO SEU VOTO!

Podemos afirmar, sem erro, que esse Congresso Nacional atual (Senado e Câmara) é o pior que já passou por aqui. Suas decisões, na maioria, prejudicam a vida da Nação e do povo brasileiro. Na área política, econômica, social e ambiental, nossos parlamentares, eleitos pelo voto popular, tem aprovado leis que fazem o Brasil andar para trás na história. Isso sem falar no festival de denúncias, de escândalos, de atos desbragados de corrupção e outras mazelas. Para dar só um exemplo, falamos do festival de besteiras das emendas parlamentares. Mas a lista de desmandos é infindável. Todo o país fala mal do no nosso Parlamento, que o próprio país elegeu. Daqui a menos de 2 meses teremos novas eleições. Agora é a hora de não só falar, mas de agir. Quatro letras formam uma arma poderosa: o VOTO! Escolher um candidato é um trabalho grande que exige atenção e perseverança. Primeiro não trocar seu voto por dinheiro ou favores pessoais. Também estudar o histórico de cada candidato. Isso ajuda a saber quem ele é. E escolher aquele que se compromete e demonstra na vida, o caminho desses itens: Aquele que demonstrar um compromisso real com essas quatro bandeiras terá meu voto. Depois, se eleito, vou acompanhar suas atitudes no Congresso e cobrar coerência e trabalho. Eleitor: na Democracia, o voto é sua arma. Saber usá-la é a chave para uma vida melhor. Agora é a hora! Gilberto Natalini- Médico e Ambientalista

FALTA ALGUÉM NESSA ELEIÇÃO!

Estamos em franco processo eleitoral para os cargos majoritários do país. Mais uma vez as eleições estão polarizadas por duas forças políticas produzidas artificialmente nos últimos tempos, que dominaram a agenda política nacional, de forma tóxica e nociva: os chamados “direita” e “esquerda”. Entre aspas mesmo. E porque entre aspas? Na verdade, estas dominações históricas, que vem da revolução francesa e que hoje não condiz mais com a realidade mundial, no Brasil, tomaram formas caricatas e falsas. Esses polos políticos aqui se caracterizam por semelhanças nocivas. Ambos, representados pelo bolsonarismo e pelo lulopetismo, têm histórico trágico de corrupção, de ligações com grupos da criminalidade, com um fisiologismo gigantesco, com formas demagógicas e populistas de governar. Ambos estão envolvidos com grandes escândalos de corrupção e roubalheira, e denúncias contra seus líderes e seus familiares, e com prisões vexatórias de um lado e de outro. Nenhum desses dois grupos pode apontar o dedo para o outro, com acusações morais, sem mostrar seu próprio rabo sujo por escândalos escabrosos, Além disso, no campo da política econômica, ambos são leais serviçais dos rentistas nacionais e internacionais, que drenam a metade da riqueza produzida no Brasil, com juros e serviços da dívida pública. Tanto a “direita”, quanto a “esquerda”, convivem com isso. No campo das liberdades democráticas, esses arautos da polarização atuam de forma diferente. Enquanto o bolsonarismo ameaça de forma aberta a nossa frágil Democracia, levantando a sombra da espada da ditadura a cada momento, e pregando o atraso nas políticas sociais e de costumes, o lulopetismo flerta com ditadores facínoras do mundo inteiro, falando o tempo inteiro de Democracia, mas aparelhando os órgãos da República, intimidando as lideranças populares, num processo de cooptação/exclusão de quem pensa diferente deles. As verdadeiras forças democráticas do Brasil se desorganizaram e se apequenaram diante do processo político. A busca de um Centro Democrático e Ético como alternativa política ainda não conseguiu acumular forças para se apresentar ao país, com nomes e plataformas competitivas. Isso é absolutamente necessário e urgente. Enquanto não acontece, entramos em mais uma eleição polarizada por dois lados, que se auto alimentam, que se dependem e que detém a rejeição da maioria do povo brasileiro. Na verdade, o que estamos presenciando é um processo eleitoral, em que os dois principais candidatos são rejeitados por enorme parcela do povo brasileiro: o petista tem 53% de rejeição, e o bolsonarista tem quase 50% também. Daí, ao invés de ouvirmos propostas de governo de ambos, ouvimos uma saraivada de acusações mútuas, e pior, uma enxurrada de denúncias nas condutas morais dos candidatos, familiares e correligionários. Confirma-se assim a profecia de Stanislaw Ponte Preta, no “Festival de Besteiras que Assola o País”. O famoso FEBEAPA. Gilberto Natalini- Médico e Ambientalista

CLIMA: CADA VEZ PIOR

Cada vez mais o negacionismo climático perde espaço. Diante das evidências gritantes das mudanças climáticas, os ignorantes e aventureiros da “negação” vão diminuindo e desaparecendo. O bom senso, apoiado nas evidências científicas e na realidade da vida, que indica a causa humana do aquecimento global é hoje quase consensual. Mas, o que ainda prevalece, em grande parte, é a inércia humana. Embora haja mundo afora, muita gente falando, tomando medidas e combatendo os fenômenos climáticos extremos, ainda há uma grande parte da humanidade que se mantém numa imobilidade perigosa, quase suicida. Assim, vemos os governos, o mundo privado, as entidades sociais e as pessoas, numa atitude de observação, quase omissa, diante dos estragos que o clima vem fazendo mundo afora. Se exasperam e se apavoram quando as coisas acontecem em seu redor. Sabemos, por pesquisas, que mais de 90% das pessoas já sabem das mudanças climáticas. Mas, só cerca de 30% delas se dispõe a tomar medidas individuais e coletivas para prevenir e combater tais fenômenos. As medidas tomadas por governos, grupos econômicos, organizações da sociedade civil e pessoas, individualmente, são muitas ao redor do mundo. Mas parece que sua intensidade e velocidade são bem menores do que a rapidez da evolução e tamanho das mudanças climáticas. Dessa forma, podemos afirmar que estamos perdendo essa guerra. Temos que fortalecer e acelerar o front de batalha. Há também um fator decisivo para avançarmos na mitigação e adaptação climática: caminhar rapidamente no sentido da transição energética. Nesse campo há o fator indesejável e perigoso do lobby do petróleo. Os países e empresas produtoras de petróleo fazem tudo para retardar a velocidade do desenvolvimento das energias renováveis. O mundo se desmanchando em cheias violentas, secas prolongadas, calor extremo, queimadas devastadoras, stress hídrico, frios extemporâneos, degelo, ventanias catastróficas, e os petro ricos, fazendo todo o possível para garantir seus “negócios”, barrando o esforço científico e tecnológico para sairmos dessa enrascada. Cabe a cada um de nós fazer a sua parte na direção correta. E cobrar as autoridades e as lideranças para saírem da zona de conforto e agirem. O tempo de esperar já passou! Gilberto Natalini- Médico e Ambientalista

O CLIMA E A SAÚDE GLOBAL

Faz pelo menos meio século que as perturbações antrópicas (sempre perseguindo incansavelmente o desenvolvimento material) sobre o planeta que nos acolhe geram muito desequilíbrio ecológico; e provocam rupturas; e alteram o funcionamento dos ecossistemas naturais. Dessa perspectiva, pesa reconhecer, nós, os modernos, temos mantido uma relação tão crítica com a biosfera que, seguindo William Ripple e colegas, “grande parte da estrutura da vida na Terra está em perigo”. Seja como for, pela primeira vez na história, quando se evoca o aquecimento global, se quer anunciar, de fato, a ocorrência de um sintomático desequilíbrio com consequências irreversíveis. Ocorre que, combinado a isso, com a nossa Pegada Ecológica (Human Footprint) colocamos o mundo natural na rota do caos ambiental e caos climático. Gradativamente, vendo a questão assim, evidenciam-se os benefícios econômicos, mas ocultam-se os prejuízos ambientais, cada vez mais desfavoráveis à vida. No horizonte crítico, firma-se o padrão habitual, quer dizer, a lógica dominante que acelera os processos predatórios, sem se importar com os danos da interferência antrópica no meio ambiente. Ou mesmo se haverá ecocídio generalizado. Ou ainda se os ecossistemas serão fragmentados; ou, em última análise, a se o clima em transe nos trará para perto dos eventos extremos. No enredo dessa crise atual – especialmente a ecológica e a do clima – o planeta, como um todo, tem sido levado ao colapso pelas forças dominantes que priorizam o lucro, por isso, em larga medida, estimulam o consumo de massa, e fazem uso inadequado dos limitados recursos do mundo natural. Em meio a essas ocorrências, com o pendor de desestabilizar, cabe perguntar: como começou a crise mais perigosa desses tempos modernos que compromete a boa qualidade de vida das pessoas? Como resposta, Rita Carelli escreve pontualmente aquilo que Ailton Krenak lhe disse em conversa reservada: “a crise ambiental que estamos enfrentando teve origem no dia em que começamos a dizer às crianças que a terra é suja”. Tomando parte dessa narrativa e procurando ainda ampliar o horizonte da resposta, há, aqui, um fato inescapável: para cada novo impacto humano no Sistema Terrestre decorrente da expansão da produção material, pior para a regulação climática e as condições químicas para a reprodução do sistema vida. Aliás, num cenário assim, distópico, em que as temperaturas globais estão cada vez mais quentes, tanto mais a sociedade humana, cedo ou tarde, se aproxima de novas e perigosas enfermidades. Portanto, de qualquer maneira, num cenário em que ainda (nós, sociedade civil) debatemos o conceito de desenvolvimento sustentável, o aquecimento da atmosfera bate seguidos recordes (a temperatura média global já é cerca de 1,37°C acima dos níveis pré-industriais). Nesse enquadramento, podemos dizer abertamente que a crise climática, pela dimensão que alcança, jamais poderá ser resolvida dentro do sistema capitalista que se alimenta da crise e de crises. Tampouco a crise do clima. Essas crises, para reiterar o óbvio, agora sabemos, custam vidas. Donde mortes e colapso (do meio ambiente, do clima, da ecologia profunda) se intercalam. Assim, vejamos mais um ponto importante: em relatório organizado em conjunto pela University College London e a Organização Mundial da Saúde, lê-se que “milhões de pessoas morrem todos os anos devido à inação diante do aquecimento global”. Sem novidades, até o fim do século, em 2100, a segurança entre o planeta e as pessoas, aponta em relatório a ONU, tende a permanecer na berlinda, uma vez que o aquecimento global pode matar cerca de 40 milhões de pessoas. Seja como for, diante do que já aconteceu, vale lembrar que, apenas entre 2012 e 2021, a média de óbitos no mundo relacionada às altas temperaturas globais foi de 546 mil por ano. Em todo o planeta, em apenas três décadas, quase 800 mil pessoas morreram em decorrência de eventos extremos. Conta simples de fazer, de acordo com o Índice de Risco Climático, da ONG Germanwatch, foram mais de 9.400 desastres climáticos impactando a saúde global. No Brasil, a cada ano, são registradas 6 mil mortes por doenças respiratórias relacionadas a temperaturas extremas, calor ou frio. Assim sendo, vamos insistir: o agravamento das mudanças climáticas, a inaceitável erosão de biodiversidade, a destruição excessiva de vegetação nativa, o mau uso da terra, a pilhagem de recursos naturais e o alto gasto energético e, por último, mas não por fim, os insuportáveis níveis de poluição do ar, do solo (estima-se que 52% das terras agrícolas no mundo são afetadas pela poluição), das águas etc, deixam, como é fácil supor, o sistema vida estruturalmente incompatível diante do desajuste planetário. Nesses termos, é bom dizer que a Terra está enfrentando abusos ecológico-ambientais porque está esquentando mais rápido do que era previsto (enfrentando assim o chamado estresse térmico). Desde 1850, o mundo já avançou ao menos 1,1°C na média da temperatura global. Agora, colhemos os resultados amargos: 70% da população mundial está sujeita a pelo menos três meses de calor severo por ano. Enquanto os eventos extremos assustam pela dimensão que alcançam, a Europa, nesse momento em que escrevemos essas linhas, arde com temperaturas acima de 45 graus Celsius. Em particular, mais ocorrências de eventos climáticos extremos significa mais vidas em risco. Assim, notar-se-á que estamos diante de uma enfermidade planetária que polariza todas as atenções. Em todo o caso, não surpreende que, quase uma década atrás, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) tenha anunciado uma verdade incômoda: “não estamos no caminho para cumprir metas de mudanças climáticas e conter aumentos de temperatura”. Desse fundo histórico, vê-se que ainda hoje sequer conseguimos encontrar uma resposta definitiva para as nossas ações contrárias ao bom desempenho da nossa Casa Comum, isto é, o nosso planeta, sempre hostilizado pela sobrecarga da economia-mundo. Objetivamente, sem as mínimas condições de bancar o equilíbrio do sistema climático e planetário, e longe ainda da proposta emancipatória e transformadora representada na experiência latino-americana do bem-viver, nossa civilização balança. E balança notadamente por conta de transformações que, a rigor, se convertem em ameaças trazidas pela concepção de modernidade capitalista dominante, baseada num sistema de acumulação (o oxigênio do capitalismo). Enquanto esse sistema – e essa concepção –

AR SECO, PULMÕES SECOS, VIDAS SECAS!

Ninguém vive sem ar! Alguns minutos sem respirar podem causar a morte de uma pessoa. O oxigênio, que compõe cerca 21% da atmosfera, é um elemento da natureza fundamental à vida. É claro que o ar é composto de muitos outros gases. Também contém elementos  em suspensão, como pólen, micro-organismos e material particulado, alguns deles muito nocivos à saúde humana, como a fuligem e os compostos de enxofre, geralmente presentes na poluição das grandes cidades. Mas há um componente do ar do qual pouco se fala e que desempenha um papel estratégico na respiração humana: o vapor d’água. Sabemos que, para ser saudável, o ar que respiramos deve apresentar umidade relativa em torno de 60% ou mais. O vapor d’água desempenha um papel fundamental na fisiologia dos pulmões, umidificando e hidratando os brônquios, bronquíolos e alvéolos, além de ajudar a remover impurezas inaladas. É aí que mora o perigo! Nos períodos de pouca chuva, especialmente durante o inverno, o ar fica muito seco e a sua humidade cai bem abaixo dos níveis ideais para o sistema respiratório. Com as grandes estiagens provocadas pela crise climática, a umidade do ar pode atingir índices inferiores a 30%. Isso compromete o funcionamento dos pulmões, além de provocar irritação nas mucosas dos olhos, do nariz e da boca. Essa situação se agrava com a intensa poluição do ar nas grandes cidades e com a fumaça das queimadas florestais. O resultado dessa combinação nefasta é o aumento exponencial das doenças respiratórias, como as bronquites e as pneumonias. Por isso, durante os invernos secos e poluídos, especialmente nas grandes cidades, os serviços de saúde ficam abarrotados de pacientes, em grande parte devido à poluição gerada pela frota de veículos. As principais vítimas dessa situação são as crianças e idosos, mas os adultos também sofrem. Com as mudanças climáticas, as estiagens prolongadas tornaram-se mais frequentes. Ao mesmo tempo, as queimadas se repetem, liberando grandes quantidades de fuligem na atmosfera. É a receita perfeita para o aumento das doenças respiratórias, muitas vezes agravadas pela presença de micro-organismos patogênicos que causam as infecções pulmonares. A solução para esse problema não é simples. Ela exige desde cuidados pessoais e mudanças de comportamento até políticas públicas de longo alcance. Mas isso deixaremos para um próximo artigo. Gilberto Natalini- Médico e Ambientalista

A PANDEMIA DE CRIMES!

O Brasil é campeão mundial de feminicídios. É vice-campeão de mortes por assassinatos. É campeão mundial de carros blindados. E disputa o campeonato global de desigualdade social. Mas não vou falar sobre o Brasil. Vou falar sobre São Paulo, a Cidade. Tenho conversado com muitas pessoas sobre a vida por aqui. Com todos que eu falo, sempre tem uma notícia, um episódio, um caso de vítima da violência urbana. Ou é a própria pessoa, um parente, um amigo, um conhecido. O fato é que ninguém vive mais tranquilo por aqui. Um celular roubado aqui, um dinheiro tomado ali, um roubo de carro acolá, uma invasão de casa mais pra lá, um crime sexual, um feminicídio, um assalto a mão armada, um golpe virtual mais pra frente. É assim que o paulistano está vivendo. Uma pandemia de crimes de grande, médio e pequeno porte. A pandemia do medo e da insegurança caminha junto. Não temos paz durante o dia, e a noite o medo é gigante. São quadrilhas de todos os tipos e tamanhos, e também ladrões e espertalhões avulsos que aterrorizam a vida dessa Cidade, nas ruas, no transporte, nas casas, nos espaços públicos e privados, nas redes sociais. Todas as medidas tomadas pelos poderes públicos parecem ser insuficientes. As pessoas vivem com medo cotidiano, e tomando cuidados individuais severos, para sua própria segurança. Sabemos que as causas dessa explosão criminosa são várias e complexas. Sabemos também que os exemplos dados pelas autoridades, nos escândalos de roubalheira e corrupção, servem de estímulo para as práticas ilícitas. Sabemos que parte dos órgãos de segurança tem envolvimento com práticas condenáveis. O fato é que enquanto o crime organizado cresce e aparece, o cidadão comum vive apavorado no seu dia a dia, e não há horizonte de melhora a curto e médio prazo. Como dizia João Guimarães Rosa: “Viver é muito perigoso”! Gilberto Natalini- Médico e Ambientalista