Morte de JK: relatório da CNV endossa perícia da ditadura militar

A Comissão Municipal da Verdade Vladimir Herzog (CMVVH), de São Paulo, não aceita o “relatório preliminar de pesquisa” da Comissão Nacional da Verdade. O documento, divulgado ontem, em Brasília, afirma que o ex-presidente da República Juscelino Kubitschek e seu motorista, Geraldo Ribeiro, morreram num acidente automobilístico na Rodovia Presidente Dutra, em 22 de agosto de 1976.

Juscelino

Em relatório de 10 de dezembro do ano passado, atualizado em 19 de fevereiro de 2014 (em anexo), a CMVVH, em documento de 30 páginas, conclui que JK e Ribeiro foram vítimas de conspiração, complô e atentado político. O “Relatório JK” lista 103 indícios, evidências, testemunhos e provas do assassinato do ex-presidente e de seu motorista.
Em seu relatório preliminar, a CNV legitima as “investigações” e “perícias” conduzidas por agentes de estado, policiais e peritos criminais a serviço do regime militar, em 1976, e volta a defender a tese de que o automóvel Opala que conduzia JK foi abalroado por um ônibus da Viação Cometa, cujo motorista foi responsabilizado pelo acidente que tirou as vidas do ex-presidente e de Ribeiro.
Entre as várias testemunhas ouvidas pela CMVVH, foram tomados os depoimentos do motorista do ônibus, Josias Nunes de Oliveira, e de Paulo Oliver, um dos nove passageiros que confirmaram não ter havido choque entre o ônibus e o automóvel. A CNV não os ouviu. Mais: Oliveira declarou que recebeu uma tentativa de suborno para admitir ter provocado o acidente, o que também foi desconsiderado pela CNV.
A CNV, procurando legitimar as “investigações” e “perícias” da época da ditadura militar, voltou a defender o exame de tintas feito em 1976, apontado como “prova” de que o ônibus conduzido por Oliveira bateu no carro de JK. O laudo, que não foi assinado pelos analistas à época e, portanto, não informava o autor do referido exame, foi um dos motivos que levou à absolvição de Oliveira, nos dois julgamentos a que foi submetido.
A CNV menosprezou o relatório da CMVVH e ouviu basicamente policiais que elaboraram as perícias de 1976, como Sérgio Leite e Roberto de Freitas Villarinho, diretor do Instituto de Criminalística do Rio de Janeiro, além de corroborar os trabalhos da Comissão Externa da Câmara dos Deputados, presidida pelo então deputado Paulo Otávio, no ano 2000, e que, da mesma forma, também serviu para endossar a versão oficial sobre a morte de JK.
Confrontação de relatórios
A CMVVH já solicitou à CNV uma reunião de trabalho conjunta com a finalidade de confrontar os diversos pontos contraditórios dos dois relatórios. O coordenador da CNV, Pedro Dallari, aceitou ontem solicitação do presidente da CMVVH, Gilberto Natalini, para que uma reunião urgente seja realizada com técnicos de ambas as comissões da verdade. “A morte de JK é um caso em aberto”, declarou Natalini nesta quarta-feira, 22.

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